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  • D. C. Blackwell

3 protagonistas negros que importam

Os eventos desta última semana me fizeram pensar um pouco sobre alguns questionamentos que não são tão frequentes quanto acredito que deveriam. Disto, surgiu uma dúvida: quantos protagonistas negros eu conheço? Nadando em meu mar de desapontamentos, incluindo, aqui, aqueles para comigo mesmo, decidi citar alguns poucos filmes estrelados por personagens de ascendência africana. Sendo eu um escritor branco, jamais poderia compreender algumas coisas, mas acredito nas artes como meio de transmissão de pontos de vista e de sentimentos. O texto a seguir possui os melhores intentos de capturar a essência de toda uma situação historicamente imensa e sob a óptica de alguém que pode meramente buscar aprender sobre o tema através de experiências de outrem.


Django


Comecemos com abundância de tiros e sangue. Esta é uma das obras mais recentes de Tarantino, que estreou em 2013 e que até hoje faz o coração vibrar, com sua trilha épica e seus personagens marcantes. Dentre eles, nosso protagonista, o ex-escravo Django, ganha justificável destaque como anti-herói negro num país e numa época de supremacia de vilões brancos – tema que infelizmente não é tão ultrapassado quanto se gostaria ainda hoje. No longa, podemos ver um homem bom sendo convertido em um pistoleiro vingativo sob uma premissa nada extraordinária: Um homem que aprende violência, pratica violência. Podemos, também, dissecar esta frase e expor os fatos à mesa da seguinte maneira: Um homem nasce escravo, ou seja, reduzido a menos do que é perante a lei, despido de dignidade, honra ou sequer educação. Este homem não possui nada, exceto o amor recíproco da bela escrava Brunhilde. Entretanto, este homem é capaz de reconhecer seu direito natural de ser livre, e acaba por rebelar-se contra a lei dos homens brancos, e, portanto, lhe tiram sua única posse. E sob a oportunidade excepcional que lhe é apresentada por um certo caçador de recompensas, Django consegue sua liberdade e a utiliza para resgatar sua donzela. Mas este plano jamais seria possível sem abdicar de sua inocência ou sem tornar-se apático à vida alheia – e aqui não discutiremos se as vidas que ele tira merecem ou não o fim que têm. Concluído o resgate, há a vingança sangrenta, ou apenas o troco dado na mesma moeda. Django encerra sua jornada não como apenas um homem livre, mas como um justiceiro que antagoniza costumes violentos utilizando-se de atitudes do mesmo teor – mas com sentimento de vingança, e não de sadismo ou indiferença. Para mim, Django é um homem endurecido pela desumanização de sua cor e que recorre aos únicos meios disponíveis para tornar-se livre – dos homens maus e do próprio passado.

Pantera Negra


T’Challa é um herói da Marvel adaptado para a televisão por Ryan Coogler em 2018 sob uma premissa totalmente contrária à de Django. Este protagonista nasceu e cresceu numa cidade utópica em que todos são livres. Ele não viveu sob o ódio e a violência contra a cor de sua pele. Ao invés disso, tornou-se um líder e um diplomata da paz mundial pregando aquilo que lhe foi exemplificado sua vida inteira: amor. Seu antagonista é um homem que, como Django, viveu os horrores do mundo e aprendeu a violência. Killmonger é a contraparte extremista de um cenário político-social delicado e é, também, portador de uma triste verdade: ele não está completamente errado. Este antagonista é um homem que entende os fatos que cerceiam a história de sua etnia, mas que responde aos problemas raciais com ideias destrutivas e opositoras. Já T’Challa foi capaz de aprender muito ao sair de sua bolha social e encarar o resto do mundo – inclusive Killmonger -, e com isto, decidiu investir numa abordagem diferente de seu nêmesis, ou seja, ele possui uma visão pacífica e inclusiva do assunto. No período que vivemos hoje, pode tornar-se difícil uma decisão entre qual deles está mais correto em sua abordagem.


Pulp Fiction


Jules é um dos personagens mais interessantes de Tarantino, na minha humilde opinião. Pense na complexidade de um homem que mata pessoas por dinheiro, mas que ao mesmo tempo é um cristão devoto! E ainda mais: pense em um homem capaz de arrepender-se e largar a vida de assassino para tornar-se um fiel. Samuel L. Jackson soma ao personagem toda uma excentricidade totalmente inimaginável sob a atuação de qualquer outra pessoa que não ele mesmo. E neste mundo tarantinesco em que vivemos, que indivíduo não possui crença – seja ela num deus ou na inexistência de um? Pois vejo toda crença como uma vestimenta espiritual ou código de conduta devidamente regrado para um fim moral, ético ou filosófico, quer fale-se de entidades sobrenaturais ou de conceitos existenciais, e Jules é um homem que crê com todas as suas forças nos ensinamentos de Cristo ao mesmo tempo em que atira para matar por dinheiro. Todos nós seguimos nossas crenças como nos convém. Somos seletivos com nossos códigos de conduta e de moral. Ah, por favor, não finja que não! Pode admitir, este será um segredo entre você e eu apenas. Mas ainda há salvação: faça como Jules e arrependa-se. Antes que seja tarde demais.

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