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  • Gisele Alvares Gonçalves

A Batalha das Correntes

Boa tarde, gente bonita... Tudo bem com vocês? Enquanto sofremos pelo hiato de Legacies, que tal falarmos de um filme de alta qualidade, super impactante emocionalmente e com atuações dignas da estatueta do Oscar? Sim, estou falando de A Batalha das Correntes, um filme que estreou originalmente em 2017, mas que injustamente só veio para as telonas do Brasil agora, na quinta-feira passada. Gente, vocês não sabem o quanto eu fico passada com essa situação! Ter que esperar dois anos por uma estreia nacional, e ainda dar graças a Deus que o filme foi exibido no nosso país, isso é um ultraje. Tudo bem darem prioridade para os filmes mais populares, como da Marvel ou da Disney, porém custa guardar salas para longas-metragens mais cultos e de temáticas mais densas, além de incentivar o público brasileiro a consumir cinema de maior qualidade? Sério mesmo, esse tipo de situação me assusta muito, ao mesmo tempo que me deixa tremendo de raiva.

Enfim, vamos falar de coisa boa! Olha, é difícil escolher por onde começar a elogiar este filme... Talvez eu devesse iniciar pelo ponto mais óbvio, que é o elenco maravilhoso, escolhido a dedo entre os melhores de Hollywood. Os dois nomes que não precisam de introdução, e de quem eu tenho certeza que vocês já reconhecem o talento brilhante, é o Benedict Cumberbatch (que vive ninguém menos que Thomas Edison no longa-metragem) e o Tom Holland, que ficou com o papel do simpático Samuel Insull, o jovem assistente do gênio inventor da luz elétrica. Outro ator maravilhoso, que os fãs de Orgulho e Preconceito vão imediatamente reconhecer, é o Matthew Macfadyen, que nessa trama encarna J. P. Morgan, o financista que arranja a fusão da Edison General Eletric e da Thomson-Houston Eletric Company. Galera, na moral... Vocês vão perder um filmão desses, com toda essa gente maravilhosa no elenco? Fala sério, só pelo nível de atuação já dá pra saber que é uma produção incrível!



O próximo ponto que eu gostaria de elogiar, e o qual acaba se tornando um foco de atenção pela própria temática do filme, é a iluminação. Caramba, sem palavras! É tão raro ter um filme que se passe no século XIX que tenha uma iluminação tão genuína quanto esta. Algumas cenas são bastante escuras, porque realmente só temos a luz das velas, ou da lua, a clarear os personagens e os cenários, o que causa uma grande imersão no período que se está trabalhando, e também um maior impacto sobre a importância da luz elétrica na sociedade contemporânea. A gente consegue entender por que esta batalha entre as empresas é algo de uma escala grandiosa, e o que estava em jogo no futuro da humanidade naquele momento. Além disso, temos também a luz vermelha utilizada de forma bastante artística em algumas cenas chaves do longa-metragem, de forma a indicar também na fotografia do filme as emoções que os atores interpretam.

Já que falamos de iluminação... Vamos falar também de direção? Pois esta modalidade se destaca em A Batalha das Correntes, mostrando que Alfonso Gomez-Rejon traz na produção uma assinatura própria. Interessante como a direção de câmera deste texano nos leva frequentemente a ver as cenas de cima, ou de baixo, dando uma amplitude para a cena muito diferente do que costumeiramente os diretores fazem. Também temos muitas tomadas que focam apenas em detalhes, como a minuciosidade de uma máquina, dando uma impressão bastante emocional para a trama, como se fossem aqueles momentos em que estamos perdidos em pensamentos, e nossos olhos se param sobre um detalhe qualquer de um objeto.

Apesar de ter esse toque emotivo de câmera, no entanto, é uma direção bastante masculina, que combina muito bem com uma trama sobre grandes homens que mudaram o nosso mundo. Ao invés de focar em graça e beleza, não se nota muita poesia na direção de Gomez-Rejon, mas sim uma dureza realística transformada em interiorização dos personagens. Temos a emoção, sim... Mas ela não é a emoção sonhadora que encontramos na direção de Rob Marshall, por exemplo, em Memórias de uma Gueixa, ou em Cary Joji Fukunaga, em Jane Eyre. Esta emoção diz mais respeito a preocupações dos personagens, e momentos de fúria, do que ao romantismo encontrado em alguns filmes focados em personagens femininas.

Falando em mulheres... Bom, elas não possuem necessariamente um papel relevante nesta trama, mas é interessante notar como ambas as esposas dos personagens principais, Marguerite Westinghouse e Mary Edison, elas trazem as exemplificações de um relacionamento saudável e um relacionamento doente. No primeiro caso, Marguerite participa em tudo da vida de seu marido: ela o apoia, dá conselhos e opiniões, participa de suas vitórias. O roteiro faz questão de nos mostrar a sintonia entre eles, e apesar de não existir necessariamente cenas românticas entre os dois, nós conseguimos notar a parceria entre marido e mulher, que estão juntos sempre que possível. Marguerite tem voz ativa no filme, ela é valorizada por George e vive de forma empolgante, raramente tendo cenas em que está em casa... E quando está, é porque seu marido também se encontra no lar, e os dois estão conversando sobre o futuro da empresa.

Já Mary é o extremo oposto. Tudo bem que tivemos muito poucas cenas com ela, mas nestas poucas cenas já conseguimos notar que ela não participava tanto da vida profissional do marido quanto a Marguerite o fazia. Ela era apenas a esposa... não a parceira. Edison tomava suas decisões sozinho, e não levava a mulher para a indústria para acompanhar o progresso da empresa. Mary sentia-se excluída da vida do marido, e acabou morrendo apenas na companhia de seus filhos, enquanto Thomas estava em uma reunião de negócios.

A forma como estes homens tratavam suas mulheres diz muito sobre o caráter de cada um, algo que é profundamente abordado no filme em seu roteiro riquíssimo. Thomas Edison demonstra ser, além de um gênio, um homem deveras arrogante, cujas intenções podem ter sido nobres no início, porém evoluem para uma preocupação exclusiva sobre a duração de seu nome na História. Antes ele era um homem de princípios, e tinha por convicção nunca desenvolver qualquer tecnologia que pudesse pôr em risco a vida de um ser humano, porém ele quebra este seu preceito pela oportunidade de ferir seu inimigo, e de ter o nome dele maculado apenas para exibir a sua falsa integridade.



Enquanto Westinghouse, bem... Ele também quebrou os seus princípios para prejudicar seu oponente, no entanto em uma questão completamente diferente. George tinha a convicção de que, se fosse para agir contra Thomas Edison, teria que ser sempre dentro dos preceitos da lei, porém quando esta via se torna infrutífera, ele vai contra seu próprio juízo de valores e acaba agindo na ilegalidade, apenas para provar para o mundo que Thomas Edison era o homem por trás da cadeira elétrica. E então, quem está certo neste jogo? Aliás, existe alguém certo, ou errado? Este filme é, em suma, uma grande reflexão sobre a moralidade do ser humano, e o quanto as coisas são cinzas quando tangem a realidade.


A Batalha das Correntes é aquele tipo de filme que tem um começo super acelerado, e se a pessoa não estiver completamente ligada nos diálogos, vai acabar perdendo o sentido do que está ocorrendo. Depois as peças vão se encaixando, porém mesmo assim exige uma atenção total no enredo, uma vez que lida com alguns conceitos complicados da física e da História. É possível ir ao cinema sem entender sobre eletricidade e sobre o século XIX? Claro que sim! Até porque eu mesma não entendo muito sobre correntes elétricas, mas compreendi cem por cento do que o filme quis me passar. O que eu quero dizer é que sim, este é um filme denso em sua temática, mas também o é em termos de construção de personagens, e também rico em reflexões possíveis a partir de sua narrativa. Sendo assim, eu digo que, sem dúvida, esta foi a melhor estreia do ano no cinema nacional, e espero que 2020 traga mais longas-metragens com tão excelente qualidade quanto A Batalha das Correntes se mostrou.

E aí, galera... Curtiram a resenha? Deixem o seu comentário aí abaixo do texto, para que eu possa saber o que vocês acharam desse filme, e se concordam com as opiniões que eu acabei de expressar. Sem mais delongas, um beijo natalino para todos, e até a próxima!

Gisele Alvares Gonçalves