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  • Ana Franskowiak

A Importância de ser Prudente (e de ver esse filme)

Saudações Cósmicas!


Eu vos convido para o chá, pontualmente às cinco. Entretanto, advirto que nem todos os torrões de açúcar disponíveis haverão de amenizar a acidez oriunda da nossa troca de farpas. Biscoitos?



Oscar Wilde é um dos meus autores preferidos. No âmbito material e formal, uma vez que eu perco parcial ou completamente o interesse em uma obra se porventura eu venha a considerar que sua escrita pende para o razoável, não importando quão promissora a sinopse possa ter se apresentado. Seus chistes penetrantes e nada velados, porém, passavam longe dos combates acalorados e alheios à postura associada a um dandy. Ao abordar os elefantes no meio da sala suntuosa adornada com enfeites de cristal (e, num contexto eduardiano, havia muitos), sua sagacidade trincava tais cristais a um passo de se espatifar, porém não os quebrava.


Dito de outra maneira, Wilde sabia quando e como incomodar, e é perfeitamente possível imaginá-lo desconcertando audiências que, identificadas por seus discursos, não podiam, em resposta, esboçar muito além de um sorriso forçado. É a esse tipo de humor que chamamos witty, e o mesmo também se faz presente nas obras de Jane Austen, Machado de Assis e dessa brilhante adaptação de 2002 de uma peça de Wilde que estreou em 14 de fevereiro de 1895.


Armadilhas do Coração derruba o estereótipo de que comédias românticas não passam de entretenimento vazio, apesar do título sofrível. Certo malabarismo criativo típico do ofício da tradução também foi empregado na tradução da peça, porém, com efeitos menos danosos que no título do filme, ressalte-se: The Importance of Being Earnest, a Trivial Comedy for Serious People (sério, como eu amo esse subtítulo!) tornou-se A Importância de ser Prudente, uma vez que esse era um nome comum na época, todavia, não necessariamente equivalente a Earnest, cuja pronúncia lembra Ernest, outro nome relativamente comum. Enfim, voltemos ao filme.



Dirigida por Oliver Parker, essa que é a terceira adaptação de The Importance of Being Earnest (a primeira é de 1952, dirigida por Anthony Asquith, e a segunda de 1992, por Kurt Baker), muito resumidamente, retrata os encontros e desencontros de dois casais: Gwendolen Fairfax (Frances O´Connor) e Jack Worthing (Colin Firth) e Cecily Cardew (Reese Witherspoon) e Algernon Moncrieff (Rupert Everett). Até aí nada de muito chamativo, certo? Excessivamente comum, alguém pode argumentar.


Pois é nesse momento que eu torno a evocar o subtítulo da peça (Uma Comédia Trivial para Pessoas Sérias) para ressaltar os méritos dessa produção responsável por ruir com os meus então profundos preconceitos referentes ao gênero de comédia romântica. Jack e Algy, best friends forever, amigos de fé, irmãos, camaradas, discutem a vida e o amor, quando Jack revela estar apaixonado por Gwendolen, prima de Algy e Algy revela estar apaixonado por Cecily, sua protegida. Novamente: tudo bem, nada chamativo e até meio enfadonho. Não fosse pelo fato de eles decidirem usar o mesmo pseudônimo (Earnest ou Ernest, como queiram), no cômico e sensacional recurso que, passando por Blossom, Chapolin Colorado e L´Avare de Molière, remete a um clássico do teatro romano: Aululária, ou a comédia da panela, de Plauto.



Muitas vezes, os maiores atributos de uma realização artística concentram-se menos n´o que acontece, e muito mais em como acontece. Muito menos naquela que parece ser sua questão central, e muito mais nas minúcias que a orbitam: os não ditos (ou ditos com tanta finesse que podem fugir à percepção num primeiro momento) que dizem mais que o explícito. E isso é lugar comum em Armadilhas do Coração, que conta com duas coadjuvantes antagônicas e fabulosas: a tutora de Cecily, Senhora Prism (Anna Massey) e a mãe de Gwendolen, Lady Augusta Bracknell (Judi Dench) que, arrisco dizer, a julgar pelos flashbacks de sua juventude, é uma das que mais tem elefantes na sua sala suntuosa adornada com cristais… mas não a julguem. Afinal de

contas, quem não os teria?


Armadilhas do Coração nos carrega do riso à raiva e da raiva ao riso outra vez, culminando num final enternecedor – e isso não é spoiler – ao mesmo tempo em que nenhum setor ou instituto social escapa à crítica mordaz, o que contrasta lindamente com a estética eduardiana. Poucas vezes eu me deparei com uma obra tão “citável”, onde mesmo os mais inocentes diálogos comportam subtextos e suas personagens, uma vastidão de significados e arquétipos a serem apreendidos pela experiência individual. Destaque para a oposição superficial (e não mais do que superficial) entre Cecily e Gwendolen e a cena da tatuagem, que, além de uma das minhas preferidas, representa uma requintada e metafórica bofetada naquela turminha do “Na Minha Época Não Tinha X”, sendo o X quaisquer atos ou pessoas que se pretenda silenciar ou ocultar.


Esse texto é dedicado ao professor Valter Henrique de Castro Fritsch, principal responsável por despertar em certa aluna então metida a badass o interesse pela obra de Jane Austen, mostrando que lutas e estratégias vão muito além de escudos e espadas.


Sejam prudentes, não mintam e do widzenia!