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  • D. C. Blackwell

A Torre Negra e a adaptação que esqueceu o rosto de seu pai

Choquem-se com a surpresa: O filme de uma hora e meia que tentou adaptar uma octalogia do Stephen King não deu certo!

Aviso: Antes de começarmos a resenha, deixo claro que, como todo mundo já sabe, a adaptação nada tem a ver com o conteúdo original dos livros do King, com exceção de algumas referências que serviram de fan-service. Por este motivo, saibam que não vou ficar apontando pra todas as cenas que foram diferentes dos livros, porque a obra toda é uma coisa à parte daquilo que o leitor conhece.

Então vamos lá.



Confesso que foi difícil assistir esse filme tendo lido os livros. E embora seja possível que a minha impressão dele tivesse sido diferente se eu não conhecesse o conteúdo original, algo em mim me faz acreditar que nada mudaria. Em suma, achei o filme sem emoção. O vilão, Walter, é mais um daqueles caras poderosos que sonham em governar cinzas – é isso o que eu penso quando me dizem que o cara quer soltar entidades cósmicas com poder de deuses pra destruir tudo o que a humanidade já criou em todas as realidades paralelas que existem pra reinar sobre elas, ou seja, tornar-se dono do maior cemitério do Universo. Quem, por mais insano ou perverso que seja, iria querer isso? É incompreensível, irrealista demais até numa fantasia distópica. A jornada de Jake é demasiada curta, e sua função narrativa é nos contar mais sobre o pistoleiro Roland e dar aquela pitada de mitologia da trama original pra não se perder completamente dela, o que não é ruim. Roland é outro herói típico: O cavaleiro cuja armadura perdeu o brilho por causa do vilão e cujo maior objetivo é a amarga vingança por aqueles que ele perdeu. Totalmente desolado e sem esperanças, ele vaga por aí sendo rude com as pessoas e atirando em monstros quando precisa. Ele também é o centro de toda a lore que conhecemos – os vários mundos, Midland, os demônios, enfim. A trama, de maneira geral, é a velha e boa corrida contra o tempo, na qual Jake, o protagonista, é a chave para decidir o destino de tudo o que existe. Roland tenta protege-lo e Walter tenta captura-lo, nada novo por aqui. Essa dinâmica costuma funcionar muito bem, mas não quando temos uma quantidade grotesca de informações que precisamos receber no meio do caminho. A perseguição, embora necessária devido ao pouco tempo de tela do filme, não permite que conheçamos mais do Universo de King, que é o ponto alto da trama, aquilo que a torna original. No final, sequer temos a sensação de que o filme chegou ao seu ápice quando Walter é morto e Jake, resgatado. Não deu pra sentir direito o gosto que as histórias do King têm – faltou estranheza desconfortável, construção de mundo, desenvolvimento de personagem... Um filme como este, se fosse pra adaptar como filme mesmo, não poderia ter menos de três horas. E mesmo assim precisaríamos manter a mesma trama e a mesma quantidade de personagens centrais, que nos livros chega a triplicar. Aí talvez, mas apenas talvez, a obra pareceria completa, por mais distante do conteúdo original que pudesse estar.


Pois é, meus amigos, como reagir a tamanho absurdo? Como fã do Stephen King e cinéfilo incurável, fiquei verdadeiramente perplexo diante da televisão (porque eu esperei a obra aparecer na Netflix depois de ouvir as duras críticas que foram noticiadas na época do lançamento no cinema) quando vi a duração do longa. Mas não fiquei zangado com o filme, não. Sabem por quê? Cada indivíduo responsável pela obra cinematográfica em questão deu o melhor de si. Não apenas isso, dentre estas pessoas, há talentos reconhecidos mundialmente. E não estou falando apenas de Idris Elba e Matthew McConaughey, mas também do diretor, Nikolaj Arcel, conhecido por Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, longa que lhe rendeu uma indicação ao prêmio BAFTA por melhor roteiro adaptado, ou o roteirista Akiva Goldsman, conhecido por escrever Eu, Robô, Eu Sou A Lenda, Uma Mente Brilhante e outros vários filmes incríveis. Não existe um nome sequer em toda a equipe do longa que não tenha um currículo bem vistoso. Dito isso, não posso culpar os envolvidos no produto final. Se existe um bom motivo para o fracasso de A Torre Negra, é o pouco tempo de tela e a falta de confiança dos responsáveis por isso, que não permitiram que a obra fosse planejada numa sequência bem estruturada. Imaginem se a trilogia Senhor Dos Anéis tivesse sido adaptada em um único filme de uma hora e meia... Sabem como isso seria? Veríamos só a parte do Frodo e do Sam. E o resto dos personagens nem apareceria, ou faria algumas cenas só pra mostrar que existe reinos e outras criaturas por aí.

Eu fico é bem triste, porque as chances de vermos A Torre Negra representada corretamente nas mídias são quase zero. Entretanto, como a esperança é a última que morre, cá estarei eu, aguardando a adaptação perfeita que irá mostrar ao mundo o total potencial do Kingverso.

E vocês, ainda têm esperança ou já esqueceram o rosto de seu pai?