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  • Angers Moorse

Arqueólogos nos cinemas: será que estamos bem representados?



Salve, salve, galera! Estava pensando em algo nos últimos dias e decidi escrever sobre o assunto nesta matéria. Afinal, será que a indústria cinematográfica vem retratando fielmente a arqueologia em seus filmes e séries? Ou será que a estão usando de forma artificial e deturpada, apenas para dar aquele clímax de aventura às produções?


Pois bem, há quem ainda tenha aquela retrógrada visão de que um arqueólogo é aquela pessoa de chapéu e roupas claras, com uma pá, uma colher e um bloco de anotações ao lado, cavando buracos em busca de ossos de dinossauros (já ouvi muitos relatos assim). Mas, afinal, o que é um arqueólogo?


Para conhecermos um pouco mais sobre o tema e analisarmos como a arqueologia vem sendo tratadas nas produções audiovisuais, precisamos mergulhar fundo na História. Então, convido você, nobre escaravelho, a navegar pelo túnel do tempo em uma jornada rumo aos primórdios da arqueologia.


A expressão arqueologia vem de arqueo (antigo) e logos (estudo), sendo caracterizada como a ciência que estuda as sociedades - tanto antigas quanto atuais - a partir da análise de objetos materiais. Esses objetos podem ser móveis (quadros e esculturas) e imóveis (construções e estruturas arquitetônicas), que podem retratar (ou não) as intervenções humanas no ambiente.


As primeiras “expedições arqueológicas” remontam à Idade Média, mais precisamente à Terra Santa. À época, expedições de cavaleiros templários foram incumbidas de encontrar vestígios de ruínas sagradas, como o Templo de Salomão e o sarcófago de Maria Madalena, entre outros, a mando da alta cúpula da Igreja Católica. Os reais fins dessas expedições, porém, ainda hoje são um mistério oculto e enterrado com seus idealizadores.


Mais tarde, na Era Renascentista (entre os séculos XV e XVI), uma onda de curiosidade e interesse acabou sendo despertada entre as maiores mentes renascentistas, sedentas por saber mais sobre o processo arquitetônico e técnicas empregadas nas construções das estruturas consideradas antigas. Entretanto, a arqueologia como conhecemos só passou a ter seu status reconhecido lá por meados do século XIX.


Com a decifração dos hieróglifos egípcios entre os anos de 1822 e 1824 por Jean-François Champollion, conhecido como o “pai da egiptologia”, houve interesse coletivo pela arqueologia como ciência, dando-lhe legitimidade no meio acadêmico. Esses hieróglifos foram decifrados a partir de inscrições existentes na Pedra da Rosetta, que era um fragmento de uma estela de granodiorito erigida no Egito Ptolemaico, contendo um decreto de um conselho de sacerdotes estabelecendo o culto ao faraó Ptolemeu V, no primeiro aniversário de sua coroação.


Alguns dos nomes mais influentes à época eram o britânico sir Flinders Petrie (1853-1942), o também britânico Howard Carter (1874-1939) e o alemão Heinrich Schliemann (1822-1890). Aliás, recomendo uma leitura sobre a biografia desses três egiptólogos… são leituras fascinantes e que nos levam a viajar nos pensamentos.


Trazendo a arqueologia mais à frente, um grande auxílio nas pesquisas foi a invenção de novos métodos de sistemas de datação, como o do Carbono-14, por exemplo. Com isso, a datação de ossadas, artefatos, objetos e inscrições ficou mais rápida e precisa, permitindo que novas e excitantes descobertas fossem confirmadas com mais precisão e em tempo menor.


E, o que seria um arqueólogo? Basicamente, é o profissional que possui como objetivos encontrar, identificar e analisar objetos do passado, seja de civilizações remotas, seja de civilizações mais recentes. Esse estudo objetiva analisar e entender a evolução humana na sociedade e de que forma ela evoluiu - ou regrediu - ao longo dos anos.


Para exercer a profissão, o fluxo natural da graduação preconiza que o arqueólogo deve possuir formação superior específica e, a partir dela, especializar-se em diversas áreas correlatas, tais como Antropologia, Museologia, Arquivologia, Geografia, Paleontologia e História, dentre outras. Contudo, nossa realidade é bem diferente na prática, havendo pouquíssimos cursos de graduação em arqueologia no país. Isso faz com que muitos profissionais (ou a grande maioria deles) iniciem os estudos cursando História, Geografia ou Antropologia para, somente depois disso (através de bolsas de iniciação científica, por exemplo), conseguirem ir especificamente para a Arqueologia.


Em linhas gerais, o arqueólogo é um cientista e pesquisador que atua dentro de metodologia científica, na qual se inclui pesquisa, busca de informações e evidências, catalogação dos objetos encontrados, comprovações de teorias e hipóteses e divulgação de conclusões. Um arqueólogo pode atuar em empresas públicas e privadas, instituições de ensino, ONGs, universidades, museus e institutos e centros de pesquisa. Além disso, pode atuar em trabalhos de campo, como escavações e sítios arqueológicos, atuando como apoio técnico ou metendo a mão na massa. Se você acha que vida de arqueólogo é fácil, faça a experiência de conversar com um para ver que a coisa não é tão simples quanto parece!


Contextualização feita, vamos ao que interessa. Afinal, Rick O'Connel, Allan Quatermain, Benjamin Gates e Indiana Jones são representações fidedignas de um arqueólogo em sua total essência? Ou são meros personagens fictícios para servir de garotos-propaganda e ícones aos blockbusters de aventura que tanto curtimos?




Comecemos por Rick O'Connel, protagonista do filme A Múmia, de 1999. Interpretado pelo ator Brendan Fraser, o aventureiro é quase um estereótipo romantizado e heroico de um arqueólogo. Mesmo com Dr. Allen Chamberlain sendo o egiptólogo e especialista na trama, Rick acaba levando todos os louros da fama, inclusive o “título” de arqueólogo por muitos fãs.


Na trama, o personagem foi um soldado que serviu a uma unidade da Legião Estrangeira Francesa em uma expedição em busca à cidade perdida de Hamunaptra, a Cidade dos Mortos, e não possui formação específica na área. Possui grande espírito de liderança e perfil bastante aventureiro, sem se importar com os riscos e perigos de suas aventuras.


Com essas características, aliadas a um jeitão de badass conquistador, tornou-se um colírio para os olhos do público feminino e, até mesmo, um símbolo sexual à época do filme. Acabou sendo conhecido como um arqueólogo e aventureiro sedutor. Contudo, na minha opinião, está longe de ser uma caracterização fiel de um profissional da arqueologia.



Allan Quatermain, por sua vez, está muito mais para um anti-herói que para um arqueólogo. Originalmente, o personagem é um caçador profissional, baixinho, magro, com barba e cabelo curto todo espetado. Um fenótipo que passa despercebido em qualquer lugar… mas que foi bastante alterado com a presença do ator Richard Chamberlain como intérprete do personagem no filme As Minas do Rei Salomão, de 1985.


Charmoso, sedutor, alto, de porte atlético e com outros atributos, passou a ser um sex symbol quando o filme foi lançado. O caçador inescrupuloso original deu lugar a um caçador de tesouros e arqueólogo. Em busca de vestígios de seu pai, desaparecido enquanto buscava pelas Minas do Rei Salomão, Allan mergulha em uma aventura recheada de ação e romance… afinal, mulheres lindas o cercando não poderiam faltar (com direito a Sharon Stone).


Outro exemplo romantizado e descaracterizado de uma arqueólogo, uma vez que faz tudo parecer tão fácil e óbvio. É claro que, nos filmes, é puramente ficção, mas não custava eles darem uma “profissionalizada” no tipo do personagem. Pode até ser uma boa representação, mas está muito longe de me convencer.



Benjamin Gates, por sua vez, traz algo que, ao mesmo tempo que foge da atuação de campo de um arqueólogo, traz fortemente a essência do profissional. Afinal, de nada adianta estar em um sítio arqueológico se não se sabe o que fazer ali. E, embora os filmes da franquia A Lenda do tesouro Perdido não possuam tantas cenas de campo, traz com bastante intensidade o lado das pesquisas bibliográficas e referenciais de conteúdo.


O personagem, interpretado brilhantemente por Nicholas Cage, é um historiador e criptologista aficionado por tesouros antigos e de alto valor histórico. Vejo ele meio que um Robin Hood da arqueologia: tem a intenção de resgatar e proteger tesouros perdidos e os devolver a museus e exposições, para que todas as pessoas possam ter acesso a essas descobertas e, assim, aprender com o passado para construir um futuro melhor.


Longe do estereótipo típico de galã másculo e sedutor, Benjamin acaba conquistando por causa do seu lado poético, romântico e apaixonado como historiador (e, porque não dizer, como arqueólogo também). Esse desejo ávido de acreditar fielmente em suas convicções e sonhos faz dele não a melhor representação física de um profissional da arqueologia, mas, sem a menor sombra de dúvidas, a melhor representação psicológica e emocional desse profissional. E que venha logo o terceiro filme da franquia!



Para finalizar nossa lista de análises, deixei aquele que é o mais conhecido - e amado - por todos: Indiana Jones. Embora bastante clichê, Indy é a representação mais próxima de um arqueólogo. Com bastante conhecimento empírico e bibliográfico, Indiana sabe muito bem o que precisa fazer em campo. Claro, há vários exageros nos filmes da franquia, mas, em linhas gerais, ele entende do assunto.


A franquia Indiana Jones é uma das mais bem-sucedidas no estilo aventura de todos os tempos. É impossível não lembrar de filmes de aventura sem lembrar dos filmes Os Caçadores da Arca Perdida, O Templo da Perdição e A Última Cruzada (menção honrosa para O Reino da Caveira de Cristal). E, muito desse sucesso, deve-se ao protagonista. Com jeitão conquistador, valente e destemido (exceto quando aparecem cobras… hehehe!), ele consegue ser um ótimo pesquisador fora de campo e um ótimo arqueólogo em campo.


Claro que há cenas nas quais o exagero é evidente (e desde quando o cinema não é exagerado?!?), mas, em sua maioria, representa com sensatez o profissional da arqueologia. Ficamos no aguardo do que o quinto filme trará, apesar de achar que a franquia já chegou ao seu limite criativo. O quarto filme até que teve uma boa temática, mas forçaram muito a amizade no roteiro e o filme perdeu-se em sua essência.



Só para deixar claro (e antes de ser apedrejado): quando falo em clichê, não quero dizer que todo arqueólogo precisa ser feio, ou baixinho, ou desajeitado, ou engraçado. Ao utilizar o termo clichê, significa que é uma série de características amplamente utilizadas por protagonistas para cativar e conquistar o público (principalmente, o feminino, quando o protagonista é do sexo masculino).


Agora que você já conhece um pouco mais sobre o que é arqueologia, quem é o arqueólogo e de que forma esse profissional é representado no universo cinematográfico, pode tirar suas próprias conclusões sobre a fidelidade (ou não) da retratação entre profissional x personagem.


Particularmente, meu sonho de consumo seria ver um misto entre Benjamin Gates e Indiana Jones… ou seja, a paixão, conhecimento e coragem de Benjamin com a ação de Indiana. E, se pudesse ter um lado menos fantasioso e mais real do profissional da arqueologia misturado no caldeirão com as características desses dois personagens, seria a combinação mais que perfeita para criar um arqueólogo extremamente cativante e imersivo nas telinhas e telonas!



Por ora, ficamos por aqui! Espero que tenham curtido a viagem pelo mundo da arqueologia. Deixe nos comentários sua opinião sobre a matéria, comente sobre algum personagem que você curte ou diga qual sua percepção sobre como o arqueólogo é representado nos cinemas. Nos vemos na próxima matéria!