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  • D. C. Blackwell

Bom Dia, Verônica - Crítica SEM SPOILERS

Adaptação literária brasileira produzida pela Netflix, “Bom Dia, Verônica” é o que nós, amantes do suspense, do terror e do drama policial, precisávamos e não sabíamos. Este é o ápice da ficção policial a nível global, podendo comparar-se até mesmo com a obra sueca de Stieg Larsson, a saga “Millenium” em termos de complexidade, verdade, emoção e enriquecimento de visão de mundo – em especial, o cruel mundo das mulheres vítimas de estupradores e agressores domésticos. Esta obra enriquece e conscientiza na mesma medida em que entretém e apaixona o espectador.


A série começa com o brutal suicídio de Marta, que, assim como outras dezenas de mulheres por dia, no nosso país, sofrem com o trauma do estupro e do abuso sexual e se veem desamparadas pela lei, sem voz, sem dignidade. O ato brutal desencadeia em Verônica, uma escrivã do departamento de homicídios da polícia de São Paulo, uma série de sentimentos que a levam por uma tortuosa investigação extraoficial envolvendo violência doméstica, assassinatos em série e crimes hediondos. Não é só a vida pessoal de Veronica que entra em jogo, mas também as das vítimas a quem ela procura trazer justiça a qualquer custo.


Os temas trabalhados na obra nos tocam profundamente com respeito à realidade e também com muita emoção e verdade, sem abdicar dos aparatos artísticos que acrescentam ainda mais, como a utilização de cores, mensagens ocultas no cenário e jogos de palavras. A direção perfeita de Llana Casoy e Raphael Montes nos emociona e nos guia pelo subconsciente, chocando-nos com um suspense violento que gela e eletriza o coração à medida em que vamos nos afundando na dolorosa e irremediável verdade junto com Veronica e Janete. Os diálogos não ficam para trás, mostrando veracidade em cada palavra, não apenas na maneira de expressar-se do brasileiro, mas também tocando tópicos importantes da família, da comunicação, do amor e respeito próprio e ao próximo e colocando em questão o egoísmo e altruísmo humano, explorando seus limites e instigando indagações éticas e morais do nosso cotidiano pelas quais muitas vezes passamos sem pensar a respeito.



A adaptação do livro da brasileira Andrea Killmore aborda um tipo de violência doméstica muito mais sutil, que passa despercebido pelas grandes massas. O tenente coronel Brandão, por exemplo, é um homem exemplar: Militar condecorado com uma carreira heroica de luta contra o crime, amado pelo povo. Quando ele chega em casa, abraça e beija sua esposa, lhe diz que a ama e que são uma família e que nada mais importa. Ele lhe dá sustento, comida, casa, presentes, noites apaixonantes e até mesmo a faz rir. Então, quando ela faz alguma coisa errada, quando ela escapa de suas expectativas, Brandão bufa, fecha os olhos, apresenta friamente seus argumentos sobre como Janete é falha e faz tudo errado, quebra alguma coisa e então sorri. E Janete, ciente do que pode acontecer sem sequer precisar viver as consequências de contrariá-lo, concorda em silêncio. Quieta, ela pensa sobre como ele tem razão, em como a culpa é dela e também sobre a impossibilidade de ver-se com alguém que a trate melhor. Afinal, a essa altura, não há contraproposta à altura da decepção do marido, que sempre lhe deu o mundo.


Violência nem sempre é visível. Às vezes, palavras podem humilhar o suficiente. Demonstrações de violência e de poder entre quatro paredes bastam para aterrorizar uma mulher que foi afastada da família e dos amigos, aprisionada em mentiras, treinada por Brandão, dia após dia, para tornar-se cada vez mais fraca emocionalmente e entregar-se completamente em aceitação às ofensas e às críticas que ele lhe conta para prendê-la à ideia de que ela é impotente, de que ela não tem poder em relação a ele. A atuação de Camila Morgado como a pobre Janete me fez chorar porque eu conheci mulheres que sofreram de forma parecida, fosse através de contato direto entre amigos, familiares e colegas de trabalho ou por notícias e relatos públicos.

E se você que está lendo passa ou conhece alguém que passa por abusos e violência doméstica de qualquer tipo, ligue para a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência pelo número 180.