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  • Ana Franskowiak

Boneco do Mal 2, ou Aquilo que não Precisava Existir

Saudações Cósmicas e perdão pela demora. Entre andanças digitais em busca de boas histórias e computadores avariados, eis que retorno, antes tarde do que nunca, com um achado curioso, e vos convido a brincar comigo, ou com o Brahms, dependendo de quanto tempo você se dispõe a dispender com uma história que muito deixa a desejar.

Boneco do Mal 1, The Boy no original e The Boy – Segue as Regras, em português lusitano, numa tradução livre bastante apropriada, foi dirigido por William Brent Bell, escrito por Stacey Menear e lançado em 2016, sendo sua sequência lançada em 2020. Reservo-me algumas linhas para discorrer sobre o primeiro filme da franquia, uma vez que seu final pressupõe sequência, sobre a qual formulei uma hipótese que não se confirmou e que, talvez, caso se confirmasse, pudesse ter amenizado a conclusão desastrosa de seu sucessor, que, por sua vez, também sugere continuação. Entretanto, por mais plausível e interessante que ela possa se apresentar, caso venha a ganhar vida, as inúmeras máculas que a antecedem afugentariam boa parte da audiência.

Greta, norte-americana, sobrevivente de um relacionamento abusivo, aceita um emprego de babá em uma mansão na Inglaterra, propriedade do idoso casal Heelshire. Chegando lá, depara-se com um ambiente afastado, soturno, uma imensa pintura da família encarando-a de modo inquietante. Um bom prenúncio para amantes do gênero, testado, aprovado e aplicado a inúmeras produções anteriores, e que contribui para o fomento de medos primordiais. Greta logo descobre que Brahms, filho do casal, morreu ainda criança, e que o menino do qual terá de tomar conta, com base em uma lista de regras, é um boneco da era vitoriana. Por intermédio de Malcolm, que também trabalha para o casal, ela descobrirá circunstâncias perturbadoras em torno da morte de Brahms, a respeito das quais correm rumores. E malgrado toda a situação (para dizer o mínimo, sem faltar com a polidez) excêntrica, Greta decide permanecer no emprego, pois alega compreender a dor da perda de um filho. Destaque para a cena do sótão.


No segundo filme, conhecemos a família de Liza, que é quase morta em uma invasão domiciliar testemunhada por seu filho, Jude, o qual não fala desde então. Por sugestão de seu esposo, Sean, retratado de modo sutil como um pai ausente, ela acaba concordando que tirar férias em um local afastado fará muito bem. Preciso mesmo dizer onde a família se instala e quem é o amiguinho que fará com que Jude volte a falar? É por esse motivo que, por mais calafrios que aquela face de porcelana cause em Liza e Sean, há um consenso de que o boneco deve permanecer. Entretanto, quando o menino começa a não apenas destroçar outros brinquedos, mas a fazer desenhos macabros no caderno outrora utilizado para comunicação e expressar desejos alegadamente do boneco, essa permanência começa a ser questionada.

Embora num plano secundário o filme aborde relacionamentos problemáticos, as sequelas indeléveis do transtorno pós-traumático e da síndrome do pânico, a narrativa primordial sofre de tantas falhas de roteiro que nem a fotografia e os cenários sombrios e propícios conseguem redimi-las. Muitas vezes eu senti mais angústia ao testemunhar o descrédito de Greta e Jude (praticamente um gatilho para vítimas de gaslighting) do que com o terror propriamente dito, incluindo as cenas de susto.


Em suas perambulações pela floresta circundante, Liza e Jude se deparam com Joseph, armado e acompanhado de seu cachorro, Oz. E o que poderia ter sido um clichê bem empregado, se revela uma escolha aleatória e descabida numa sequência que, para meu desapontamento, guarda de semelhança com seu antecessor tão somente o nome, rompendo com a continuidade esperada e gerando um sentimento de inconformismo, de que faltou algo. Talvez, bom senso para perceber que certas ações das personagens não transmitem a mínima sombra de plausibilidade. Assistindo a essa película, finalmente compreendi uma premissa inerente à criação artística, mais precisamente a literária, que certamente não foi aplicada ao roteiro: ela postula que, na realidade, as coisas não têm obrigação de fazer sentido, todavia, o mesmo não se aplica à ficção.

Mais triste e decepcionante que uma história inerentemente ruim, é uma história que poderia ter sido excelente, sendo arruinada por um mau desenvolvimento. Sequer a origem da maldade aludida no título é conservada, e tudo bem caso não fosse, uma vez que pontos de virada servem para colocar a criatividade à prova e, não raro, se revelam os melhores momentos de uma trama. Porém, para tanto, é preciso que haja nexos de causalidade convincentes, o que não ocorre na produção em questão, embora ocorra no primeiro filme da franquia, o qual, num movimento surpreendente, nos arranca do terror sobrenatural, arremessando a audiência sobre outra vertente que não convém revelar.

A franquia Boneco do Mal foi o produto de uma ambição desmedida, ou da maldição da trilogia, que incide, em geral, sobre obras de fantasia. Os pontos altos distribuídos ao longo dos dois filmes, caso fossem condensados numa película única, a tornariam impecável. Porém, ao estender a história além do necessário, gerou-se uma sequência pior que qualquer maldade que Brahms pudesse engendrar. Quem a herdará num terceiro filme? Não sei e nem quero saber.

Beijinho, sigam as regras e do widzenia!