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  • D. C. Blackwell

Ei, você! Ainda não assistiu CIDADE INVISÍVEL?!

Hoje é dia de alegria. Hoje é dia de festejar muito. Hoje, meus amigos, é dia de homenagear e prestigiar essa nova onda de audiovisuais brasileiros incríveis que só foi possível graças aos investimentos da Netflix! E a obra da vez – e que obra! – é a sensacional, incrível, sombria e renovadora, Cidade Invisível.


As lendas eram todas reais. Todas aquelas histórias do nosso folclore, os seres que habitam os bosques, vingam a natureza e atordoam os desavisados com suas habilidades sobrenaturais, tudo isso é verdade. Mas nosso protagonista, um policial ambiental que perdeu a esposa num incêndio florestal, ainda não sabe disso. Ele, porém, irá descobrir toda a verdade conforme se aventura numa investigação que conecta todos os pontos: o incêndio que matou sua esposa, a morte de um boto e o envenenamento de um lago de pescadores, tudo aponta para um crime ambiental que abalou não somente os moradores dos entornos da floresta, mas também as entidades que um dia juraram protegê-la.



A releitura de cada uma das lendas folclóricas mais populares do Brasil é ponto chave da obra. Ao longo dos episódios, estas mesmas lendas vão sendo desvinculadas de suas versões infantilizadas – aquelas que todo mundo conhece, do Sítio Do Pica-Pau Amarelo – e reimaginadas com toda a sobriedade e obscuridade de que precisam para retomarem ao menos uma parcela de sua notoriedade original, ou seja, de antes de Monteiro Lobato.


No méxico, temos o Wendigo. Na Irlanda, os Leprechaun. Aqui, no Brasil, temos a Cuca, o Curupira, o Caapora e muitos outros. É uma pena que tenhamos demorado tanto para dar valor às nossas próprias lendas e mitos, especialmente considerando a riqueza e profundidade delas, elementos perfeitamente explorados pela direção desta primeira temporada de sete episódios. Os efeitos da série são impressionantes. Tiveram toda a verossimilhança que a história precisava sem perder o encanto e a sobriedade, o que muitos considerariam contraditório. Chego, inclusive, a comparar Cidade Invisível com Deuses Americanos e afirmo que Neil Gaiman tem é que se explodir, porque eu gostei mais da série daqui mesmo. E tenho dito!


As atuações e escolha de elenco são brilhantes. A Alessandra Negrini, que interpreta a Cuca, é simplesmente majestosa, imponente e misteriosa, com um quê de sensualidade. É a Eva Green brasileira e eu a amo. Deixaria a Cuca me pegar tranquilamente, diga-se de passagem. Brincadeiras à parte, achei geniais algumas desconexões que foram muito importantes para tirarem o estigma de alguns personagens. Cuca, por exemplo, não necessariamente tem aparência de jacaré. Como bruxa do sono, ela pode escolher dentre uma lista de animais para suas transformações. Caapora é outro exemplo de como as lendas originais variam de acordo com região e período. Muita gente conhece a figura mitológica como uma mulher, mas na série vimos outra variante da lenda na pele do músico e ator Jimmy London sob o nome de Tutu. Ambas versões estariam corretas, porque Caapora também pode ser um homem peludo e vermelho que se transforma num porco do mato. Iara e Saci possuem origens que podem ser reproduzidas de inúmeras maneiras diferentes, de forma a criar personagens com aparências e personalidades completamente diferentes uma da outra. Particularmente, eu adoraria ver variantes dessas lendas nas próximas temporadas, imaginando que possa existir um saci, uma Iara, uma Cuca, para cada região do país. Seria incrível!



A trama da série segue um formato de mistério típico e que me lembra muito da trama de The Wolf Among us, jogo da Telltale. Uma investigação leva em consideração a revelação gradual de antigos segredos, e personagens distantes devem cooperar e unir forças para encontrar o grande vilão e conseguir uma forma de derrotá-lo antes que seja tarde demais. Enquanto isso, todos estão em perigo e, a cada momento, qualquer um pode ser o próximo a morrer. Em sua essência, é tudo bem simples. Porém, novamente eu repito, o grande trunfo da série é a maneira como renova o espírito folclórico do espectador, fazendo-o acreditar naquele submundo fantástico e torcer a favor do protagonista, indagando com ele sobre o que é verdade e o que é mentira. A trama tem o passo certo para a proposta que tem, pois vai nos servindo os elementos sobrenaturais em doses homeopáticas, de maneira que não conseguimos recusar aqueles personagens e situações. Não nos perguntamos, em momento algum, se há algo de errado ou incorreto sobre os acontecimentos ou sobre a maneira como os personagens e suas habilidades e origens funcionam – apenas deglutimos tudo com prazer e sentindo sempre o delicioso sabor do “quero-mais”!


O único pecado da série é o final.

NÃO SE PREOCUPE, NÃO HÁ SPOILERS AQUI!

Fique apenas com o seguinte aviso: se você se frustra com finais de temporada em aberto, espere a segunda temporada, porque as respostas para todas as nossas perguntas e o desfecho deste enredo não serão encontrados no último episódio. Dito isso, ainda há muito pano para manga e acredito que a série conseguirá tranquilamente atingir as expectativas e deve chegar logo com mais uma temporada incrível. Com sorte, teremos o desfecho que merecemos, e ele certamente será épico, sombrio e espetacular.