NoEDC.jpg
Buscar
  • Angers Moorse

Cinemas drive-in: voltando para ficar (!?)



Salve, salve, galera! Com a pandemia de coronavírus, a indústria do entretenimento sofreu grandes perdas, incluindo as produções cinematográficas. Praticamente todas as filmagens de longas e séries foram canceladas, cinemas foram fechados e até mesmo aquela reunião entre amigos para curtir um filme em casa ficou suspensa por tempo indeterminado.

Contudo, toda grande tragédia traz consigo uma chance de recomeçar, de se redescobrir e de encontrar novos caminhos para superar a crise. E, entre essas redescobertas, uma delas vem ganhando grande destaque como a nova aposta da indústria cinematográfica: o cinema drive-in.


Caso você pense que isso é novidade, está redondamente enganado. Os cinemas drive-in são bem antigos e tiveram seu auge e brilho décadas atrás. A partir de agora, mergulharemos no passado para conhecer essa história. Pegue seu combo e ligue o rádio do possante, pois viajaremos direto no túnel do tempo para dentro das telonas!


O que é cinema drive-in


Basicamente, um cinema drive-in consiste na exibição de filmes, shows ou espetáculos ao ar livre, normalmente em grandes estacionamentos, com os espectadores dentro de carros. Há um (ou mais) telões gigantes, e o sistema de som é disponibilizado via rádio. Nos carros, as pessoas sintonizam a estação (AM ou FM) na qual o áudio está sendo transmitido.


Os áudios podem ser dublados ou legendados (nesse caso, as legendas são apresentadas no telão, como se fosse em um cinema comum. Serviços de bomboniere podem (ou não) ser disponibilizados e, caso positivo, podem ser adquiridos já na entrada, junto dos ingressos, ou com vendedores que passam pelos carros durante a exibição do filme.


Como surgiu


A primeira ideia de cinema ao ar livre surgiu na cidade de Las Cruses, no México, em 23 de abril de 1915. Havia um auditório que comportava aproximadamente setecentas pessoas, além de espaço para 40 a 50 carros no estacionamento. O Teatro de Guadalupe - posteriormente renomeado como De Lux Theatre, teve como primeiro filme exibido “Sacos de Ouro”, produzido por Siegmund Lubin.


Aliás, uma curiosidade: Siegmundo pode ser considerado como o “pai da pirataria”, uma vez que vendia cópias ilegalmente adquiridas de filmes de outros diretores, como os de Georges Méliès. O De Lux Theatre fechou as portas em julho de 1916.


Oficialmente, Richard M. Hollingshead Jr pode ser considerado como “o pai da criança”... e a história é, no mínimo, interessante e curiosa. Em 1932, Hollingshead fez uma experiência no quintal da própria casa, após ouvir de sua mãe várias reclamações sobre as cadeiras dos cinemas.


Por ela estar acima do peso, e as cadeiras não a acomodarem de forma adequada, ele teve a grande sacada: pendurou uma tela entre duas árvores, estacionou o carro a certa distância dela, instalou um projetor sobre o carro e ligou rádios atrás da tela, fazendo vários testes para encontrar a melhor propagação do som.


Para fazer com que os carros pudessem ver a tela sem atrapalhar uns aos outros, instalou algumas rampas nas quais os carros subiam, de modo a ficarem inclinados e terem melhor visão. E foi assim, após alguns testes, que a ideia ganhou corpo e forma. Em 6 de agosto de 1932, Hollingshead entrou com pedido de patente de “sua” invenção e, em 16 de maio de 1933, foi-lhe concedida a Patente US 1909537.


A partir daí, várias cidades nos EUA tiveram conhecimento da ideia e decidiram implantar os cinemas drive-in. No início, o som não era muito bom, pois as caixas eram posicionadas ao lado da tela. Isso causava o efeito de delay para quem estivesse estacionado mais distante da tela. Assim, o som demorava mais para chegar até o carro, causando diferença de sincronia entre áudio e vídeo.


Esse problema foi contornado com a instalação de mais alto-falantes ao longo dos estacionamentos, permitindo diminuição desse efeito. Contudo, o problema só foi realmente resolvido após a chegada dos rádios nos carros. Com isso, bastava sintonizar a estação indicada pelo cinema que o veículo recebia o som do filme, sem atrasos e com qualidade superior… e com a vantagem de controlar individualmente o volume.


O ápice


O auge dessa modalidade de entretenimento veio nos anos 50 e 60, quando estima-se que 4 mil cinemas drive-in foram instalados nos Estados unidos, fora outros tantos ao redor do mundo. Esses cinemas eram instalados, em sua maioria, em áreas rurais, longe dos grandes centros, atingindo um público ainda maior.



Por exemplo, o Johnny All-Weather Drive-In, em Nova York, comportava 2500 veículos, além de ter restaurantes, playgrounds e um teatro fechado no próprio espaço, para os casos de mau tempo ou para os espectadores que preferissem um ambiente mais privativo e com ar-condicionado. A maioria dos cinemas seguiu esse padrão.

E a proposta também era muito mais atrativa pelo tipo de público. Sem as restrições dos cinemas comuns, os cinemas drive-in eram considerados como espaços mais livres, nos quais todos tinham maior liberdade. Ou seja, pessoas podiam fumar abertamente, pais e idosos podiam cuidar de crianças pequenas e bebês enquanto assistiam aos filmes, e até mesmo jovens podiam ter um espaço para marcar encontros românticos. Certamente, muitas vidas foram concebidas nestes cinemas.


Por causa da entrada de um público mais jovem, muitos dos cinemas começaram a investir em filmes de terror e nos chamados filmes de exploitation, que investiam pesado em cenas de violência e sexo explícito.

No Brasil, os drive-ins só chegaram no final dos anos 60. Em 25 de agosto de 1973, foi inaugurado o primeiro cinema drive-in em Brasília que, até hoje, encontra-se em funcionamento. Além da capital do país, outras cidades receberam seus cinemas quase na mesma época, tais como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Campo Grande e Porto Alegre, entre outras.


O declínio


Com as crises imobiliárias e de energia de 1970, os cinemas drive-in começaram a ter sérias restrições orçamentárias. Terrenos nos quais os cinemas estavam instalados começaram a ficar mais caros e os valores de aluguéis ultrapassaram o orçamento de muitos proprietários. Isso fez com que o valor dos ingressos fosse substancialmente aumentado, afastando muitas pessoas.


A própria mudança de conteúdo exibido começou a afastar um pouco do público e os locais começaram a ganhar certa má-fama entre os mais conservadores. Apesar disso, o maior vilão dos drive-ins foi o fator econômico mesmo.


Outro aspecto que prejudicou consideravelmente a arrecadação dos cinemas eram as condições climáticas. Por serem exibidos ao ar livre, muitos cinemas nos Estados Unidos ficavam localizados em regiões com clima instável, com sequenciais furacões, tornados e tempestades, o que não possibilitava as condições mínimas de segurança para a exibição dos filmes.


Ainda, como a maioria dos cinemas só conseguia exibir os filmes à noite, por conta da iluminação, e apenas podia passar um ou dois filmes por noite, diferente dos cinemas convencionais, que conseguiam exibir mais filmes num mesmo dia, muitos deles ao mesmo tempo em salas diferentes.


Posteriormente, a migração de sistemas analógicos para digitais também causou forte impacto nos custos, o que fez muitos dos proprietários pesarem a relação custo/benefício e decidirem fechar os cinemas, uma vez que se gastaria muito mais que a arrecadação.


Não bastassem todos esses fatores, a “pá na cova” foi o advento das fitas de VHS e do crescimento das programações de televisão, o que fez com que as pessoas preferissem assistir aos filmes no conforto de suas casas. E ainda havia o risco da violência.


No final dos anos 80, apenas 10 a 20 por cento dos cinemas permaneciam abertos e, em 2013, esse número era de apenas 389 drive-ins oficialmente operantes nos estados Unidos (atualmente, são 400). No Brasil, o único sobrevivente foi, coincidentemente, o de Brasília, primeiro cinema drive-in inaugurado no país.


O ressurgimento


Por causa da pandemia de coronavírus, algumas empresas decidiram apostar nos cinemas drive-in como forma de recuperar capital e oferecer às pessoas uma experiência única e nostálgica de ver grandes clássicos dos cinemas com maior segurança.


Entretanto, há quem discorde dessa premissa. Segundo alguns médicos, os cinemas drive-in não são indicados neste momento, por conta do distanciamento social. Alega-se que a distância mínima não é respeitada, o que aumenta os riscos de contaminação. Afirma-se, também, que é obrigatório o uso de máscaras e álcool gel dentro dos veículos.


Ainda, é estritamente recomendado que apenas pessoas que morem dentro da mesma casa estejam dentro do veículo, sem ter pessoas “estranhas” nele. O consumo de alimentos e bebidas também não é indicado e, mesmo aqueles vendedores de pipoca, cachorro-quente e outras guloseimas que passam entre os carros, podem ser potenciais transmissores.


Contudo, há quem diga que os drive-ins são seguros, uma vez que respeitam integralmente as diretivas e exigências de saúde e segurança. Para eles, é a forma mais segura de assistir aos filmes favoritos com segurança, uma vez que estão em ambiente controlado e que, deixando uma fresta aberta dos vidros para circulação de ar, impede a proliferação do vírus no veículo.


As opções


Florianópolis, Balneário Camboriú, Itajaí Rio de Janeiro, Praia Grande, Curitiba, Porto Alegre e Joinville são algumas das cidades brasileiras que estão trabalhando para o funcionamento dos drive-ins. A programação dos filmes dos locais que já estão em funcionamento poderá ser consultada via internet nos sites de compra/venda de ingressos e nas homepages dos próprios locais.



Alguns, como o de Brasília (Cine Drive-in), Florianópolis (Drive Park), Rio de Janeiro (Jeunesse Arena), Praia Grande (Litoral Plaza Shopping), Curitiba (Planeta Drive-In) e Porto Alegre (Cine Drive-in), já estão em funcionamento e divulgaram suas programações e valores. Outros, como Balneário Camboriú, Itajaí e Joinville ainda estão em fase de estudos, mas é praticamente certo que terão os cinemas em operação, possivelmente, ainda no mês de junho.


Várias outras cidades já demonstraram interesse na ideia e redes de cinemas como Cinemark, Cinesystem e GNC Cinemas estão em conversas para implantarem os projetos em curto prazo. Uma vez que as filmagens de Hollywood estão sendo retomadas aos poucos, e que várias cidades norte-americanas e de outros países já contam com essa modalidade, é possível que as produtoras resolvam lançar seus blockbusters nos cinemas drive-in.


De qualquer forma, todos os cinemas seguirão devidamente todas as normas de segurança e distanciamento social. Haverá controle de entrada de veículos, o acesso das pessoas aos banheiros também será monitorado, e a temperatura de todos os ocupantes dos veículos deverá ser medida. Ainda, para a compra de ingressos e eventuais serviços de bomboniére (o serviço não foi proibido, mas recomenda-se que não seja disponibilizado), a prioridade será para compra antecipada online.


Opção temporária ou que veio para ficar?


Não sabemos se a volta dos cinemas drive-in é apenas uma solução temporária por conta da pandemia ou se eles voltaram para ficar. De qualquer forma, é uma opção muito interessante, que traz em si toda uma sofisticação e charme.


Sobre a parte da segurança, é uma questão difícil de analisar, com seus prós e contras. Embora haja, inevitavelmente, risco de contágio, o carro ainda é um ambiente “controlado”. Tomando os devidos cuidados com a higienização e desinfecção do veículo, usando máscaras e álcool gel, os riscos são um pouco menores. Contudo, nada é 100% garantido.


Com a tecnologia atual, há maior possibilidade de exibição de filmes, mesmo durante o dia, uma vez que os problemas com luminosidade podem ser minimizados mais facilmente. A qualidade do som também evoluiu muito, o que seria um problema a menos. Há alguns sistemas de som incríveis, que evitam o delay mesmo em grandes distâncias, graças a complexos processamentos de áudio e à alta tecnologia empregada em alto-falantes.


Sem contar que o próprio ambiente influencia positivamente no grau de imersão e no romantismo envolvido. Particularmente, embora eu curta muito um bom cinema tradicional, assistir a um bom filme em um cinema drive-in é muito mais emocionante... ainda mais se for ao lado de uma boa companhia e curtindo uma pipoca e refrigerante (ou, até, cardápios mais elaborados). Sem dúvidas, essa é uma experiência inesquecível, que você vai querer repetir várias e várias vezes!



Você já foi a um cinema drive-in? Gostou? Conte-nos como foi. Se quiser tirar dúvidas a respeito do tema, informar programação e locais de cinemas ou deixar sugestões, deixem seus comentários. Para nós, é uma honra contar com vocês! Nos vemos na próxima matéria!