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  • D. C. Blackwell

Creepshow - S1E1

Bem-vindos a Outubro, o mês do horror, meus amigos!

Eu sou D.C. Blackwell, e hoje trago a vocês um presente digno do Mês das Bruxas. Que época perfeita para estrear uma série que teve seu túmulo violado e seu corpo decrépito e roído trazido de volta dos mortos…

Isto é Creepshow, a nova série que lançou seu primeiro episódio no final da semana passada, iniciativa da Shudder, um serviço de streaming similar à popular Netflix, mas com um detalhe: ela só tem conteúdo de horror, thriller e suspense. Creepshow, entretanto, não é novidade. Não, Creepshow foi uma trilogia de direção de George Romero e de Stephen King - Só isso, né?! -, sendo o primeiro de 1982. Os filmes são compostos de vários contos, assim como a nova série. Misturando cenas de gibis com atuação live-action, os contos tomam uma forma única e surreal que nos leva direto para os gibis de horror, que eram muito populares no século passado, embora eu odeie usar essa expressão. ”Século passado”, pfft. Voltando ao assunto da série que acaba de estrear, explico, para quem ainda não assistiu, um pouco do conteúdo do primeiro episódio:


Gray Matter

Este possui dois contos, sendo o primeiro um daqueles tipos clássicos de histórias de monstros em noites chuvosas. A história começa com Timmy, um garoto entre catorze e dezesseis anos, adentrando uma loja de conveniências numa noite de chuva torrencial. Lá, ele é questionado por dois policiais que esperavam a chuva passar até revelar que está com medo de voltar para casa porque seu pai… “Mudou”. Intrigados com a situação e temerosos pelo garoto, os policiais vão atrás do mencionado pai. A dona do estabelecimento, então, cuida do rapaz e pede para que ele se explique. À medida em que o garoto explica a macabra e asquerosa história de como o pai havia mudado, os policiais invadem a casa do pai de Timmy, um local coberto de mofo, musgo e outras coisas desagradáveis aos sentidos humanos. Timmy então revela que o pai se tornou alcoólatra depois do falecimento da esposa e que dia após dia sua sede aumentava. Mas isto, meus amigos, era apenas o começo, como o próprio Timmy nos conta. Este conto em particular é um monumento ao horror dos anos oitenta, um verdadeiro resgate da cultura dos gibis de horror. Diversas cenas são intercaladas com cenas de gibis que nos são lidas como páginas. Os desenhos dos personagens se tornam os atores, que continuam a cena como se parte dos quadrinhos em si. Este conto não causa tanto medo, do mesmo jeito que filmes de Jason e Freddie Kruegger já não nos afetam. Ao contrário, nos sentimos à vontade, contemplando uma espécie de saudosismo da nossa infância, recordando histórias como da série Goosebumps, para quem nasceu nos anos 90, ou os próprios filmes antigos de Creepshow. Esta história grita aos fãs do horror clássico: “Hey! Estou aqui e sou exatamente o que você esperava!”.



The House of The Head

O segundo conto, intitulado “The House of the Head”, ou “A Casa da Cabeça”, em tradução livre, tem um apelo muito mais sinistro. Se a trama anterior causa até mesmo uma sensação de aconchego ao espectador, The House of the Head faz o contrário. Juro por Fhtagn que me arrepiei mais de uma vez assistindo essa segunda parte do episódio! Nele, uma garota ganha uma casa de bonecas, daquelas que simulam todo o interior de uma casa de verdade, com todos os cômodos e com paredes e teto com dobradiças, para que se possa ver tudo por dentro. Porém, enquanto a pequena Evie posiciona cada um dos integrantes da família fictícia Smithsmith dentro da casinha, repara que as figuras se movem quando ela desvia o olhar, aparecendo em cenários bastante adultos que uma garotinha de sua idade não compreenderia - como o boneco de um garoto olhando TV sozinho com uma toalha no colo, se é que me entende… Num dos cômodos, ela nota uma figura que não havia adquirido na loja de bonecos: uma cabeça decepada e ensanguentada, de pele esverdeada e olhos esbugalhados como ovos fritos, em expressão de horror.

A cabeça passa a atormentar a família de mentira, sempre observando onde eles não conseguem ver, e tudo o que Evie pode fazer é comprar mais bonecos para ajudá-los. Quando ela compra um boneco de policial, este começa uma caçada à Cabeça, mas falha, aparecendo com a própria cabeça decepada. A família de mentira adquire expressões de horror, e nós, que estamos assistindo, nos intrigamos de tal forma que sentimos - ou melhor, sabemos - que existe algo de real naquela história. Ficamos imaginando quando é que a Cabeça vai começar a atormentar a família de verdade de Evie. Quando é que a primeira pessoa de verdade vai morrer. E aquela família de mentira? O quão de mentira era? Com suas expressões e posições humanas dentro da casa, como fotografias de pessoas de verdade, uma sátira de uma assombração cruel e medonha que impede Evie de dormir.


A segunda tentativa é com um boneco de um nativo americano, na esperança de que este fizesse algum ritual para expurgar a assombração da House of the Head. Mas este também falha, novamente tendo a cabeça decepada em sua perseguição ao monstro. A garota, por fim, tira a cabeça da casa, e é neste momento que sabemos que tudo está perdido. Agora a maldição está no mundo real, e Evie é astuta o bastante para perceber e buscar a cabeça antes que seja tarde demais. Ela encontra a cabeça já em tamanho real e a empurra para dentro da casinha, a fecha e a doa no dia seguinte. Finalmente liberta do horror da Casa da Cabeça, Evie volta à sua rotina, porém marcada para o resto da vida - ou pelo menos deveria, porque eu certamente ficaria.

The House of the Head tem gostinho de quero-mais. O suspense e a violência velada implícita que ocorre na família Smithsmith são chave para manter o espectador preso à tela da TV, curioso para saber mais e ao mesmo tempo temeroso pelo que espera pela garotinha Evie e sua família nas mãos - ou na cabeça - do monstro. Com bem menos efeitos estéticos de gibis, como no conto anterior, este conto ainda carrega a mesma vibe oitentista do horror inocente. O mais gostoso deste conto é o fato dele não precisar de violência explícita para funcionar. Até mesmo o conto anterior, “Grey Mattter”, precisou de mortes de verdade e cadáveres de verdade para adquirir seriedade, mas não “The House of the Head”. A fragilidade e inocência de uma criança entram em choque com a esperteza e o sadismo da Cabeça, que fez de tudo para provocar os piores pesadelos a Evie. O resultado é algo que eu amo: uma narrativa perfeitamente equilibrada. O terror que a Cabeça causa seria uma piada para qualquer adulto, mas quando somos colocados no papel de uma criança indefesa e que sabe que não será ouvida por nenhum adulto quando disser que “a casa de boneca está amaldiçoada” torna a situação muito mais séria e perigosa. Em resumo, acredito que Creepshow (2019) tem um potencial enorme para trazer alguns fãs dos mortos e recrutar novos acólitos para o culto do horror. Não é para menos, pois o Mestre do Horror Stephen King é um dos roteiristas, e todos sabemos que o escritor tem o talento de transcender gerações ainda em vida como poucos fizeram antes dele. A direção é genial, old school, mas sem deixar de ser atual. A equipe toda está de parabéns! Pretendo seguir resenhando os episódios ao longo das semanas, embora todos os episódios já estejam disponíveis na plataforma digital da The Shudder. Gostou da resenha? Então curta, comente, nos siga no Face e venha nos visitar neste fim de semana, porque resenharei todos os episódios!

Um excelente e assustador Outubro de seu pior inimigo, D.C. Blackwell.