NoEDC.jpg
Buscar
  • Ana Franskowiak

Entrevista com o Vampiro, ou Leia esse Filme e Assista a esse Livro

Saudações Cósmicas! Liguem seus gravadores e puxem uma cadeira: tenho histórias excelentes para contar. Melhor dizendo, motivos razoáveis para, espero, vos convencer a conhecer uma história excelente, livres dos preconceitos que sempre permeiam as adaptações de obras literárias para os meios audiovisuais.


No ano de 1976, Anne Rice lançou o primeiro título de sua série de quase vinte livros, as conhecidas Crônicas Vampíricas, que ganhou adaptação cinematográfica em 1994, com direção de Neil Jordan. Eis Entrevista com o Vampiro, uma de minhas obras literárias preferidas, traduzida para português brasileiro por outro gigante literário, Clarice Lispector, e transposta, em 2012, para a nona arte por Ashley Marie Witter, que deu voz à minha segunda personagem preferida e cujo traço espetacular faz com que eu releve uma grave falha narrativa.



Ocorre que, recentemente, Entrevista com o Vampiro ganhou uma reedição belíssima e, de tempos em tempos, ressurge o boato que alvoroça a nós, fãs de Anne e de seu Povo da Lua e das Estrelas: uma série que contemple o conteúdo de todos os livros e, preferencialmente, de maneira fiel. O que dá margem a questionamentos a respeito do conceito de fidelidade e como ele se relaciona com a liberdade criativa.


Essa semana, enquanto eu assistia a um vídeo do canal Mimimídias, no qual a Clara Matheus discorria sobre Onde Os Fracos Não Têm Vez, enfatizando mais o filme do que o livro, eu me vi meditando acerca da seguinte afirmação: quando um filme resulta igual ao livro que o originou, o sentido da adaptação se perde. Partindo desse pressuposto, a película de Neil Jordan já começa obtendo considerações positivas. Ao menos, para quem leu o livro e pode estabelecer essa comparação. Ou não, para quem leu o livro e possui grande dificuldade em aceitar adaptações, digamos, drásticas. Em especial no que toca a personagens, uma vez que o enredo é respeitado, e os cenários, a fotografia e os figurinos revelam-se deslumbrantes.


Diferentona que sou, por vezes eu me uno ao coro do “eu li o livro e tal coisa não é assim”, mesmo que meu primeiro contato com a obra, novamente, uma das minhas preferidas, tenha se dado por meio da sétima arte. Talvez por essa razão, e por outra que pretendo revelar ao final do comparativo que se segue, eu consiga relevar melhor as tão incômodas mudanças que, conforme eu pretendo demonstrar, sequer causam tanto incômodo, uma vez que as atuações, um dos fatores mais importantes a avaliar em um filme, se mostram primorosas… bem, quase todas. Enfim…



Lestat de Lioncourt: particularmente, única atuação da qual desgosto, porém, tolero. Ela exacerba a nível teatral alguns dos principais traços de personalidade do Matador de Lobos de Auvergne (para mais detalhes, leiam o segundo livro da série) e tal exacerbação passa a impregnar alguns volumes das Crônicas posteriores ao filme, por exemplo, Cântico de Sangue, de 2003. Quanto à sua aparência, embora o biotipo respeite o descrito no livro, há de se pensar como se pareceria um indivíduo de vinte anos de idade, época de sua transformação, nascido no século XVIII. E, por falar em juventude, isso nos leva a…


Claudia: se muita gente considera chocante ver uma menina de cerca de onze anos fazer as coisas que ela faz, mesmo se tratando de uma atuação, eu tenho uma notícia que pode chocar ainda mais: a personagem concebida originalmente obtém sua imortalidade aos CINCO anos de idade. Não casualmente, essa foi a idade em que faleceu Michele Rice, filha da autora, em decorrência de leucemia. Apesar dessa diferença de seis anos, um dos principais méritos da obra resta intacto: ele reside no desconforto e contrassenso causado, por exemplo, ao nos depararmos com uma mulher de cinquenta anos que passa a ser filha do seu filho (para mais detalhes, leiam o segundo livro da série), ou com um jovem angelical de dezessete anos que já viveu cerca de quinhentos. Sim, eu estou me referindo a ele, o mais controverso de todos

quando se trata dessa oposição entre o livro e o filme…


Armand: um dos melhores personagens, em minha opinião, e protagonista do sexto livro da série. Eis um caso onde a grande atuação de Antonio Banderas (sinto o mesmo em relação ao Van Helsing de Anthony Hopkins) faz com que relevemos a ausência do ruivinho sardento e andrógino com ares de enfeite de igreja, nos termos do debochado Lestat. Por sinal, ele não é o único que diverge em aparência em relação à sua contraparte literária…


Daniel Molloy: considero particularmente curioso o fato de que a cobrança em relação ao biotipo, tão acentuada em relação a Armand, não ocorra em semelhante medida em relação a esse personagem, que é fortemente ligado ao vampiro mais velho do segundo volume das Crônicas em diante. Uma breve busca por fanarts evidencia a diferença, mas também a coincidência proporcionada por seu “jeito de estudante”, algo curioso, que o levará a ouvir a história de…


Louis de Pointe du Lac: a autora nada tem a dissertar, pois encontra-se prostrada vomitando coraçõezinhos ante a simples menção do seu nome. Brincadeiras à parte, o mais fiel de todos à concepção original, em aparência e personalidade. E que tem muito a dizer, para além dos estereótipos de criatura monstruosa e mortífera. Talvez, muito mais a respeito de quem o julga um monstro do que sobre si mesmo.



Moral da história: diferenças que não comprometem o enredo e o cerne da narrativa, assim como os principais debates que ela promove, devem não somente ser encorajadas como utilizadas para promover um diálogo entre as diversas formas de arte empregadas para se contar uma boa história, reforçando o título desse texto. Quando Daniel liga o gravador e Loius inicia sua divagação, uma questão principal começa a tomar forma: você quer aprender com ele, ou repetir os seus erros? Daniel fez a sua escolha. Quando eu escrevo um texto, que escapa ao lugar comum da discussão, por vezes agressiva, do filme versus livro, eu também fiz a minha escolha. E espero que, nesse caso, a sua escolha seja a mesma que a minha, apesar de tantas vozes dissonantes.


Mas, Ana, você não gostaria de ver atores e atrizes “mais condizentes”, caso o projeto da série saia do papel? Essa já é outra história. Quanto às obras das quais já dispomos, reforço mais uma vez o título do texto, e assino embaixo, dessa vez, não como a Nômade Cósmica, mas com o nome que me foi dado alguns anos atrás: Ana Claudia Franskowiak.


Assistam bons filmes, leiam bons livros, cuidado com janelas abertas à noite e do widzenia!