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  • Ana Franskowiak

Filmes (Não Tão) Infantis

Saudações Cósmicas!


Eu amo Moomins.


Moomins nada mais são que são criaturinhas fofas que lembram hipopótamos (mas não externalize esse pensamento!) e vivem num lugar idílico entre montanhas, praias e outras belezas naturais. As histórias protagonizadas pela família Moomin e demais amigos e amigas versam especialmente sobre questões ambientais e o valor da amizade. Entretanto, esse texto não é sobre Moomins ou Tove Jansson, sua criadora (mesmo porque, depois que eu assistir a cinebiografia dela, eu certamente terei muito a dizer), mas sobre o fato de eu ter conhecido essa linda animação baseada em livros e tirinhas e produzida em 1990 apenas nesse ano de 2020. Ou seja, depois de “velha”.



Também esse ano, concluí em dois dias uma de minhas melhores leituras da vida: Coraline, do genial Neil Gaiman, o mesmo criador de Sandman, meu quadrinho preferido, aclamado e premiado pela trama elaborada que orbita os temas mitológicos de vários povos, representações humanas fidedignas, especialmente de subculturas e profundas reflexões filosóficas encabeçadas pelas personificações de sete conceitos Perpétuos, um dos quais eu tatuei. Mas esse texto também não é sobre Neil Gaiman, Sandman ou mesmo Coraline Jones, essa menina curiosa e corajosa cuja animação merece um texto só seu. Velha. Menina. Quadrinhos. Animação. Acredito que vocês já entenderam onde eu pretendo chegar.


O hábito da leitura, e, posteriormente, da escrita me ensinou a ler os subtextos, ou a analisar as múltiplas dimensões, ou camadas, como queiram, das obras que nós consumimos, muitas vezes, com percepções meio distraídas, buscando tão somente entretenimento. E, conforme eu disse em um texto mais antigo sobre cinema de terror, não há nada de errado nisso. Contudo, se alguém me serve um sorvete, e eu sei que há muito mais no pote além da calda e das cerejas, por que eu deveria me contentar apenas com elas, por mais deliciosas que parecessem?



Chamar alguém de infantil é um insulto muito recorrente (acreditem, nem as crianças, cronologicamente falando, escapam a ele), e é até compreensível, por exemplo, quando um debate de cunho acadêmico descamba para falácias e ofensas ad hominem. Mas por que esse termo ofende ainda mais quando transborda para outras instâncias da vida, como a vestimenta, certas posturas e comportamentos, ou o que mais nos importa aqui: a arte? Mais precisamente o audiovisual, e mais precisamente ainda, dentre as produções audiovisuais, as animações.


“A gente acostuma, mas não devia”. Embora tal estigma tenha deixado de se aplicar aos filmes de heróis e heroínas, contemplados pelo abrangente selo de “para todos os públicos”, o mesmo não pode ser dito acerca dos animes e mangás, por mais que nós, que frequentamos ou frequentávamos eventos de anime, soubéssemos do teor perturbador de algumas produções. A ideia equivocada de que histórias que se valham de arte e texto para serem contadas, forçosamente, se destinam ao público infantil, é responsável por bizarrices anedóticas tais como colocar uma obra de Milo Manara na sessão de livros infantis (é dele o traço que ilustra uma linda história de Sandman, precisamente, protagonizada por Desejo).


Confesso que eu mesma já propaguei semelhantes preconceitos. Por vezes eu deixei de assistir a certas animações ou filmes clássicos considerados infantis, alegando que, talvez, as obras indicadas não mais dialogassem comigo. Que eu havia chegado tarde ao rolê e, portanto, azar o meu. Mas isso foi antes de saber que as primeiras animações produzidas não se destinavam a crianças (Walter Lantz que o diga), que algumas correntes históricas apontam para a infância enquanto invenção e que, para melhor fruir de uma boa realização artística, é preciso revisitá-la e redescobri-la com novos olhos, que apenas podem se renovar ao longo do tempo.


Dito isso, eu passei a aceitar as dicas futuras e rever algumas das produções que fizeram parte da minha formação enquanto indivíduo. Sinceramente? É um exercício que todo mundo deveria fazer. Minha percepção se expandiu desde a compreensão do cartaz de regras para se viver na pensão do Leôncio, até a possível personificação de transtornos psicológicos nas personagens do Ursinho Puff. Por que diabos a Senhorita Belo, dona daquela voz aveludada, nunca mostrava o rosto? Sério isso que o Simba é o Hamlet da savana? E será que o Rocko e o Vacão e o Bob e o Patrick seriam mais do que amigos? Com ou sem respostas, o ápice dessa jornada de (re)descoberta se deu com Irmão do Jorel que, nas palavras de seu criador, Juliano Enrico, pode ser visto e compreendido por uma criança daqui ou de qualquer outro país. Arrisco expandir esse público, uma vez que se trata do desenho que sonhei em ver quando criança e que, talvez, não tenha chegado tarde para mim ou outras pessoas com anseios e gostos parecidos, mas na hora certa.



Eu poderia encher páginas com as descobertas de Alice a respeito do mundo louco no qual vivemos e a respeito de si própria, com lições de autoestima e cooperação vividas por Dorothy e seus companheiros de jornada (o que é aquela consideração do Espantalho sobre pessoas que falam em excesso?), ou digressões em torno apenas da resposta fenomenal do Gato quando Coraline pergunta se ele não tem nome, porém, repito, ela, assim como as demais obras que foram citadas, merece um texto só seu. De momento, sugiro tão somente que repensemos preconceitos. Um período caracterizado por descobertas, aprendizados e espontaneidade nunca deveria ser definido por rótulos pejorativos. E talvez a negação e a constante repressão que esses valores haverão de sofrer ao longo da dita vida adulta seja o fator a definir quem é realmente infantil, no mau sentido.


Busquem conhecimento, não se levem tão a sério e do widzenia!