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  • Ana Franskowiak

Hellraiser – o Inferno em mim saúda o Inferno em você

Saudações Cósmicas!


Vocês abriram a caixa e agora… não, espera. Fãzinha empolgada, perdão.


Já se perguntaram o que torna uma obra imortal? Especialmente se tratando de audiovisual, cuja estética e os efeitos possuem vida relativamente curta e aquilo que outrora nos extraiu arrepios, anos mais tarde, será motivo de riso? Não é o que ocorre com, por exemplo, Nosferatu de F W Murnau, que segue apavorando desde 1922, e o clássico de 1987, cuja simples menção já me acende a centelha da inspiração. Eu me refiro a Hellraiser, ou Renascido do Inferno, de Clive Barker.



Hellraiser é muito mais que a história de uma legião de demônios (ou anjos. Qual você escolhe?) pálidos, carecas e trajados de roupas de couro e vinil. E, talvez, essa visão limitada, que fez tanta falta às pessoas envolvidas na produção do quinto filme em diante, tenha sido a responsável pelos seus notórios fracassos, com direito a uma resposta, no mínimo assertiva do criador: quando citado que um dos filmes em questão havia saído diretamente da sua cabeça, Clive Barker rebateu que, caso saído dele, somente poderia ter sido da sua porção final do tubo digestivo…


O primeiro filme da série, dirigido pelo próprio Clive Barker, é baseado no seu livro The Hellbound Heart, de 1986, e as duas obras divergem em alguns pontos, por exemplo, quanto à ligação entre Frank e Kirsty. Entretanto isso não compromete a qualidade da história, uma vez que o núcleo permanece: Frank Cotton, hedonista e inescrupuloso, porém, incauto, dedica-se à busca por fontes de prazer, precisamente, sexual, inauditas. E haverá de encontrá-las. Não da forma imaginada. Quem nunca assinou um contrato contendo asteriscos e letras miúdas, ou iniciou uma relação com alguém que prometeu o paraíso e proporcionou exatamente o oposto, não é?



A maioria da base de fãs defende ardorosamente a trilogia inicial, excluindo Hellraiser IV – Bloodline, do qual, pessoalmente, gosto muito. Não porque foram cenas esparsas dele que, primeiramente, me puseram em contato com a obra de Barker, mas por abordar os primórdios da Configuração de Lamentos e ainda conservar um dos principais elementos visuais e metafóricos do inferno ao qual a resolução do enigma conduz: a maleabilidade da carne consolidada na forma de criaturas medonhas, como os gêmeos tornados siameses, e a icônica Angelique, responsável por uma série de piadas infames cultivadas por anos entre meu círculo de amizades, acerca de manter-se uma pessoa de cabeça aberta. Anedotas à parte, uma quadrilogia parece-me o tamanho da sequência ideal, mesmo se tratando de um universo riquíssimo. Ironicamente, quem mostrou que, às vezes, o preço pela extrapolação de certos limites é altíssimo foi o próprio Frank.



A criação de Clive Barker é tão grandiosa que redefiniu o conceito de cenobita. Se, antes de sua concepção, a palavra remetia a um monge ou monja que se dedicava à vida ascética dentro de uma comunidade chamada cenóbio, hoje, sua primeira acepção remonta às criaturas evocadas pela solução do enigma contido no misterioso cubo. E por que alguém ciente dos horrores que ele desencadeia se poria a resolvê-lo? Pode a curiosidade humana sobrepujar a sensatez? Pode, porém, não se trata aqui de simples curiosidade, mas do deleite orgástico obtido ao longo da resolução que resulta num conflito de interesses digno da retórica de um gênio da lâmpada: o que é prazer e, principalmente, para quem. Como diz o mesmo Motorhead que gravou Hellraiser para o terceiro filme, The Chase is Better than the Catch, e, verdade seja dita: Pinhead e sua coorte não omitem suas intenções, tampouco traem aquilo que pregam – hehehe – e praticam: nós é que pensamos ter entendido…


Notícias a respeito da reversão dos direitos da franquia Hellraiser ao criador em 2021 colocam fãs – tipo eu – em estado de alerta. No sentido positivo. Em 2015, foi lançado Evangelho de Sangue, continuação do livro de 1986, que, apesar do desfecho algo abrupto, apresenta personagens sensacionais, como o tatuador Caz e uma das melhores, não apenas desse universo, mas da literatura de um modo mais geral: Norma Paine. Eu vos desafio a ler e não torcer para vê-la nas telinhas e telonas. Ademais, o livro explora paisagens e criaturas indeléveis, mas não foi a única mídia a fazê-lo.


No início da década de 90, o selo Marvel Epic lançou quadrinhos da franquia, que reuniram uma infinidade de artistas de renome (Jonh Bolton deu vida a alguns e algumas das melhores cenobitas já concebidas), de modo que, mesmo as histórias não canônicas, como Os Cânones da Dor, ambientada nas cruzadas, convencem mais que todos os filmes produzidos do ano 2000 em diante. Pessoalmente, eu sonho em ver a Devil´s Brigade liderada pelo Pinhead, seja num filme, seja numa série.


Numa releitura macabra do mito de Pandora, Hellraiser escancara aquilo que podemos nos tornar, ou já somos, debaixo de formas menos maleáveis. E enquanto novos modos de causar dor, prazer ou as duas coisas, a depender do tratamento que a obra de Barker receberá, não passam de conjetura, fica a pergunta extraída do refrão de Freak, do Bruce Dickinson: quem te conduz ao segredo obscuro?


“Que as promessas de paraíso não lhes empurrem para o inferno”. Do widzenia!