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  • Ana Franskowiak

Horror ou Terror? O Melhor do Pior em Seis Filmes

Saudações Cósmicas!


Vamos rir um pouquinho? Sim, vocês estão no lugar certo. Não, esse não é um texto sobre comédia, ainda que o rebuscado adjetivo tragicômico descreva com precisão as “obras” que estou prestes a apresentar. Todavia, antes de dar início a essa sequência de lágrimas e risos, um momento de reflexão para não perder o meu tom habitual:


Vocês sabem qual é a diferença entre horror e terror?


Conforme Ann Radcliffe, a noção de horror se relaciona ao susto, ao choque; a horrorizar-se diante de uma situação extremamente desagradável, enquanto o terror compreende toda a ansiedade e o estado de espírito que antecede a situação horrenda. Devendra Varma emprega um exemplo sucinto e eficiente dessa distinção na obra The Gothic Flame: terror seria sentir um odor pútrido, enquanto horror consiste no ato de esbarrar no cadáver. Voltando a Radcliffe, em livre tradução, ela postula que:


“O Terror expande a alma e desperta suas faculdades a um alto patamar vital. O Horror, em contraste, congela e quase as aniquila com suas ímpares demonstrações de atrocidade. Percebi que tanto Shakespeare como Milton com suas ficções, e mesmo o Senhor Burke com seus discursos racionais, vislumbraram o horror positivo enquanto fonte do sublime, ainda que concordassem quanto ao terror constituir elevada fonte do mesmo.”


Fonte do sublime. Não incorreria em exagero associar tão pesada presmissa a realizações artísticas que se pretendem tão somente uma fonte de entretenimento, a ponto de originar o termo Terrir? Provavelmente. Entretanto, mesmo os clássicos do cinema B não se furtam de critérios mínimos de verossimilhança, tendo em vista as ideias de suspensão de descrença e coesão interna. E menos ainda atuação e roteiro. Critérios esses cuja ausência notabilizou as joias que compõem minha primeira lista de recomendações reversa, ainda que por razões indesejáveis.


E já basta de teoria, ou terror preparatório.



A Maldição de El Charro: eis que encontro valendo-me de certa frase feita – nunca diga nunca – para descrever o meu relacionamento com sites que lhes atribuem notas, especialmente, em estrelas, com os quais eu jurava que nunca concordaria. Se bem que as duas estrelas que, em geral atribuídas a esssa frustração em forma de filme parecerão até generosas, para quem consiga suportar até o fim essa tentativa de terror ancestral que tenta abordar reencarnação, mensagens oníricas, vingança por “amor” não correspondido, jovens em férias e… clichês envolvendo o México. Nem Danny Trejo, tampouco Lemmy Kilmister me impediram de, ao término da película, enunciar a questão inevitável e um pedido inatendível: o que eu estou fazendo da minha vida? Quero meus noventa minutos de volta!

O Bebê Maldito: OK, sou grande apreciadora de abordagens distópicas, em especial aquelas que expõem os horrores aos quais o mau uso da ciência se presta, e, sim, acredito que mesmo nessas tramas há espaço para abordagens de cunho religioso. Infelizmente, esse horror duologico – não no sentido positivo previamente discutido – do início da década de noventa acaba falhando em ambos os enfoques. Experiências envolvendo fertilidade humana acabaram gerando criaturinhas maléficas e mortais eu me recordo com nitidez da tensão construída em torno da visão de suas feições, até que elas são reveladas e… as referidas pérolas estão disponíveis com legenda no Youtube e horror verdadeiro, foi ver comentários de pessoas cujo primeiro contato com ela se deu numa sessão na escola. Exatamente da mesma forma que aconteceu comigo! Será que a professora ou professor dessas pessoas também lhes trouxe o remake do Massacre da Serra Elétrica e foi flagrada sorrindo no fundo da sala enquanto assistia?

Medo Sem Fim: sério… Sério? essa talvez devesse ter sido a reação do elenco ao receber o convite para participar dessa… manifestação artística de gosto discutível, porém, o que as pessoas não fazem por dinheiro, né (What You Do For Money, Honey na minha rádio mental tocando enquanto eu escrevo)? No original, Scarecrow Gone Wild (novamente, sério?) retrata as consequências desastrosas dos detestáveis trotes universitários (ah, essa juventude não aprendeu nada com aquele rapazinho do lago…) que acabam despertando um… espantalho. Digamos que seus meios de aterrorizar a população revelam-se bastante atípicos. Como e com quem ele aprendeu a dirigir? Enfim, pronomes interrogativos me levam ao meu próximo melhor pior filme.


O Homem Cobra: um herpetologista. Um sonho: transformar seres humanos em cobras, tendo descoberto em seu novo assistente a nova e perfeita cobaia para a inoculação do soro que já mostrou resultados graduais e exitosos. Tá. Por quê? Por que ele pode? Por que ele quer? Por que um ente ancestral adorado no Antigo Egito tem lhe falado em sonho? Só o cosmos sabe? Todas as anteriores? O que, porém, sabe-se de imediato é que um filme originalmente chamado Sssssss (espero ter acertado o número de ésses) provavelmente não ensejaria expectativas das melhores. Hoje, enquanto me recordo da cena do cientista lendo Whitmann para uma de suas primeiras cobaias já totalmente trasnformada, e daquela que era exposta em um circo de horrores, penso: como é que isso podia nos causar tanto medo? Superação? Consciência da ruindade? Calma, pois esse, nem de longe é o pior de todos…


The Body Shop: percebam que a pioridade aumenta e que os anos setenta dos quais me mostro muitas vezes entusiasta também produziram alguns dejetos como esse, cujo título mais parece o nome de uma loja de suplementos para academia. Também atendendo pelo nome de Doctor Gore, a… obra retrata o empenho de um cirurgião plástico em reviver sua esposa morta no corpo construído por ele com ajuda de seu auxiliar corcunda. Preciso continuar? Quem dera a hipnose da qual o protagonista se vale para atrair suas vítimas funcionasse para apagar da minha mente a total falta de noção, as atuações péssimas e a musiquinha macabra, tosca e persistente.



Manos - The Hands of Fate: sim, existe a algo ainda pior que Doctor Gore e nasceu de uma aposta! Harold Warren, dirigiu, escreveu e atuou contando com um orçamento ridiculamente baixo, encarando a aposta e dando vida ao Pior dos Piores, escarnecido até mesmo pelo seu reduzido elenco. Entre erros de continuidade, clichês mal empregados, diálogos pavorosos e cenas desconexas que parecem brincar com os clichês dos filmes de terror envolvendo viajantes e pessoas que fazem sexo em locais inapropriados, essas férias de família inusitadas ganharam uma sequência em 2018! A título de curiosidade, os únicos cachês pagos foram uma bicicleta ao “homem do carro” e um saco de ração a um dos cachorros. Anos depois, Jackey Neyman escreveria um livro de subtítulo sugestivo: como fui a estrela mirim do pior filme já feito e vivi para contar a história. Existe inclusive jogo do filme, mas, não falarei mais, pois o Mestre não aprovaria…


“E onde jaz a grande diferença entre horror e terror senão na incerteza e na obscuridade concernente ao mais terrível mal?” Retomando Radcliffe, eu vos avisei. Sigam por conta e risco. Mesmo porque, quando um cheiro pútrido começa a exalar, é porque o cadáver está em algum lugar há tempos. A pergunta é: seguiremos ignorando?


Um feliz dia das bruxas com muitas gostosuras e do widzenia!