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  • Ana Franskowiak

Lords of Chaos e o Verdadeiro Black Metal Norueguês

Saudações Cósmicas! Ou, quem sabe, Infernal Hails?


14 de março de 2011. Recordo-me com nitidez dos anúncios e do clamor de amigos e amigas para que eu comparecesse ao show (ritual, alguém dirá) em questão. Minha indecisão perdurou até o final da tarde, pois embora eu apreciasse algumas músicas das bandas, elas não se afiguravam dentre as minhas preferidas. Será um momento histórico, insistia uma colega de trabalho. Terminei o expediente, parti para o curso de língua polonesa e conheci, na porta da sala, um headbanger que também compareceria ao tal ritual. Está decidido: eu vou.


Correria ao fim da aula. Minha colega não atendia o celular, tampouco o outro amigo e, então, colega de banda que dera certeza de sua presença. Não havia ônibus direto para o lugar do show. A primeira banda já deve ter começado. Correria para deixar os livros na casa do novo amigo e para a impaciência da fila, por sorte, não tão longa. Entramos e conseguimos um lugar junto à grade, perdida, talvez, a primeira música. Entre um show e outro, o encontro efusivo com meu companheiro de banda. Bah, divaguei aleatoriamente, seria daora se eles abrissem com música tal, né? As luzes baixaram, a névoa se ergueu.


E abriram com a música em questão para nosso insano deleite! Desse modo, totalmente inusitado e, por que não, cinematográfico, se deu uma das noites mais memoráveis dessa que vos fala, tendo por cenário o show de Taake e Mayhem. E é sobre a segunda, ou, seu fundador e as peculiaríssimas conjunturas do nascimento não somente de uma banda, mas de um estilo, que trata Lords of Chaos, de 2018, dirigido por Jonas Åkerlund, nome bem conhecido para quem acompanhava a programação videoclíptica da finada MTV.



Inspirado no livro de mesmo nome de Michael Moynihan e Didrik Søderlind, o filme quebra a quarta parede, sendo narrado por Øystein Aarseth, ou Euronymous, guitarrista do então incipiente Mayhem e dono da gravadora Deathlike Silence e da loja de discos Helvete, numa escolha que me pareceu pouco adequada, tendo em vista o desfecho da história. Em compensação, a atuação de Rory Culkin, nesse que é o papel principal, não somente convence como impressiona, embora, talvez, essa não seja a produção mais recomendada a pessoas impressionáveis.



A predominância do Hard Rock somada à paz excessiva (uma provável fachada de imposturas inerentes ao ser humano) da bela Oslo favorecem o surgimento de uma resposta artística avessa aos padrões estéticos e sonoros vigentes. Enquanto, por exemplo, em Seattle, Estados Unidos, a refutação ao Hair Metal oitentista se dava pelo Grunge, pesado, depressivo, porém arrastado e envolto em flanelas e jeans rasgados, no norte europeu, a mesma se materializou no Black Metal, de vocais angustiantes e bateria furiosa, embrulhado em maquiagens cadavéricas, pregos e cintos de balas (não por acaso, às vezes eu me pego imaginando como a icônica Freezing Moon soaria caso fosse concebida por Jerry Cantrell, autor da doentia e belíssima Frogs).


Nesse contexto surge o Mayhem, não como simplesmente uma banda de Black Metal (curiosamente, influenciada por predecessoras bastante performáticas, como Venom e Celtic Frost), mas do Verdadeiro Black Metal Norueguês, empenhado em combater o cristianismo e os modismos supostamente responsáveis pela degradação da cena do metal. Eis a razão apresentada por Euronymous para justificar o suicídio de Per Yngve Ohlin, ou, simplesmente, Dead, e, com isso, promover a banda mediante o espalhamento de boatos macabros. Se os hábitos pouco convencionais de Dead, tal como a maneira escolhida para dar fim a uma vida de depressão e outros distúrbios mentais já chocam, a reação de Euronymous ao se deparar com seu cadáver não é menos que repulsiva.


Fosse como fosse, a fama do Mayhem já havia se espalhado, atraindo a atenção de muita gente, incluindo um jovem tímido e afável: Kristian, que é ridicularizado pelo popular Euronymous devido a um patch do Scorpions pregado no seu colete. Mesmo assim, os dois virão a se relacionar, ainda que de modo bastante problemático. E depois que Kristian passar a atender por Varg ou Count Grishnackh, sua rivalidade se tornará mais acirrada, e culminará em uma tragédia.


Lords Of Chaos foi criticado negativamente por parte dos músicos e reacendeu boatos sobre conspirações e inimizades cultivadas por Euronymous, num cenário no qual a música passou a ocupar lugar secundário entre queimas de igrejas, amuletos de origem repulsiva e flertes com discursos de ódio, como o neonazismo e a homofobia que levou Faust, baterista do Emperor, a assassinar um homossexual. E ainda que certas liberdades poéticas tenham sido tomadas, elas não invalidam a experiência de quem pretenda ter uma ideia do que acontecia nas reuniões do Black Circle, no porão da Helvete. Reservo-me, porém, o direito de narrar algo ainda mais cinematográfico: o momento em que, quase vazia a casa de show, o roadie do lendário Jan Axel Blomberg, o Hellhammer, presenteou com uma baqueta autografada certa headbanger estupefata que até hoje guarda dentro de um livro o ingresso dessa noite e não entende a razão desse ato mágico. Ah, a primeira música tocada foi Pagan Fears.



Hail Satan, não brinquem com fogo e do widzenia!