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  • D. C. Blackwell

Mansão Bly - Episódio 1 comentado

A Volta Do Parafuso – Ou The Turn Of The Screw para os íntimos – é uma das obras literárias de terror mais adaptadas cinematograficamente de todos os tempos, contendo aproximadamente 15 versões para o cinema e para a televisão. A primeira foi Os Inocentes, filme de 1961, dirigido por Jack Clayton e indicado ao prêmio BAFTA como melhor filme. Chocados? Eu sim. E muito! Primeiro, porque eu fui assistir A Maldição Da Mansão Bly sem ter a mínima noção de que fazia parte desse “multiverso” criado pelo escritor Henry James em 1898. Segundo, porque, embora eu soubesse que o livro é um clássico da literatura de horror inglesa, jamais teria imaginado que tantas obras cinematográficas se classificariam abertamente como adaptações ou como inspiradas por ele, incluindo na lista filmes muito amados pelo público e por mim, como Os Outros. É claro que, quando falamos de adaptações e obras inspiradas, sabemos que isso não significa que farão jus ao conteúdo original. Mas falemos disto mais para frente!


De toda maneira, isso eu só descobri mais tarde. Durante os primeiros dois minutos do primeiro episódio, para ser mais exato, no preciso instante em que uma personagem, que parece ser a protagonista, diz que vai contar uma história de fantasma e literalmente fala o nome da obra original (turn of the screw ou volta do parafuso). Nesse momento, pulei da cadeira em vibrei com alegria, porque eu soube que eu teria uma segunda chance (ou décima sexta) de ver uma adaptação digna do original, especialmente depois da decepção de ter ido ao cinema assistir Os Órfãos – outra dentre as tantas versões da obra, mas que não valeu o dinheiro do ingresso. Decidi, então, embarcar nessa de corpo e alma.

A Maldição da Mansão Bly narra uma história dentro de outra história. Confuso? Espera, que eu já explico. Tudo começa com essa mulher misteriosa interpretada por Alex Essoe, sobre a qual nada sabemos ainda. Ela canta uma triste canção sobre um salgueiro choroso em um take, e no outro, vemos que ela se desloca a uma festa de noivado. Lá, no clima de histórias de fantasmas, ela decide contar a sua, embora ela afirme não ter envolvimento com os eventos da trama. Ela procede a narrar a desventura de uma jovem professora que consegue um emprego numa mansão e que passa por uma série de incidentes sobrenaturais, e é aí que a história começa de fato. É esta jovem professora, Danielle, que acompanhamos ao longo dos misteriosos eventos que tomam lugar na mansão Bly.


O primeiro episódio nos dá uma boa prévia do que está por vir. Danielle parece fugir de algo em seu passado que ainda a atormenta, tomando forma de um vulto que aparece nos espelhos para perturbá-la. Enquanto isso, o comportamento dos dois irmãos vai ficando cada vez mais estranho. Enquanto Dominic parece agir e pensar como um adulto muito estranho num corpo de criança, Flora age como uma espécie de protetora, alertando Danielle dos perigos da casa e posicionando bonecos como guardiões por todo o terreno. Somos informados também, neste episódio, de algumas outras peças centrais, como a morte da antiga professora e de como e por que ela morreu. Ela é a Dama Do Lago, isso fica bem claro. Os momentos finais do episódio foram bastante tensos, não só com o aprisionamento de Danielle no armário, mas também pelas pegadas de barro, que certamente levarão Danielle ao lago. E as crianças apenas observam de longe. Será que eles estão protegendo Danielle? Ou estão contra ela? Minha aposta, como alguém que conhece o livro original, é de que eles estão divididos.


Tenho altas expectativas para com a série. Ela parece persistir num clima muito mais melancólico e tenso do que o puro terror de “dar susto”. Eu gosto disso e acho que é o caminho que o terror precisa trilhar para atingir uma evolução nas suas tramas. Afinal, o que é que vem depois das experiências traumáticas de um evento sobrenatural maligno? Resta dor, pesar, melancolia. O sofrimento está no horror e vice-versa. Torço para que a direção caminhe junto ao conteúdo original e nos mostre a renovação que o terror precisa, assim como foi com A Maldição na Residência Hill, que é um exemplo espetacular de horror melancólico, transicionando gradualmente entre um e outro com suavidade e sagacidade, dando a sensação de naturalidade que nos insere na obra.

Fiquem atentos ao próximo episódio!