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  • D. C. Blackwell

Mansão Bly - Episódio 3 comentado

O terceiro episódio chama-se Ecos Do Passado e aborda, como o próprio nome diz, revela ao espectador os eventos que precederam o trágico fim de Rebecca Jessel. Esse, em particular toca num ponto que, infelizmente, faz parte da nossa realidade ainda hoje e está longe de manter-se apenas na ficção. Trata-se do terror real de viver ao lado de um homem doente, violento e possessivo, capaz de aprisionar uma mulher com palavras – ou com os punhos, se assim se fizer necessário.


Jessel caiu nas garras do adorável e apaixonado Peter Quint antes mesmo de perceber. Gradualmente vemos Jessel ser submetida à condição de subordinada a Quint, sendo humilhada por ele e fazendo-a ver o resto do mundo como inimigos, pessoas de quem ela deveria afastarse para seu próprio bem e dignidade, sem que ela perceba que faz exatamente o oposto ao dar-lhe ouvidos. Sempre que ela tentava romper com aquele controle que lhe era imposto, Quint dava um jeito de trazê-la de volta, mesmo que fosse usando força bruta. Um aperto no braço, um puxão, uma demonstração de fúria, um grito... Pouco a pouco, Quint a domestica até que quase nada sobre da vontade de Jessel, no fim das contas. Mas é claro que ainda descobriremos mais sobre o exato momento de sua morte, que ficou para ser revelado mais adiante.


Peter Quint representa uma parcela da população que vive por aí aterrorizando boas pessoas, sugando-lhes a inocência e a dignidade através de um processo de lavagem cerebral que consiste em fazer com que sua parceira se sinta culpada e odeie a si mesma, afastando a todos até que sobra apenas seu agressor a confortá-la no escuro da noite, no escuro da alma. Homens como Peter Quint não conhecem limites porque sabem como conquistar respeito, amor, autoridade, controle, tornando-se verdadeiras máquinas sociais com um talento para passarem despercebidos por seus crimes. E enquanto não forem detidos, as Rebecca Jessel espalhadas mundo afora continuarão a perecer injustamente, sem chance de sobrevivência.

Pouco sabemos sobre o paradeiro deste vilão. A ideia de que ele pode estar vivo ou ser uma assombração é forte, inclusive porque dita maldição fantasmagórica não necessariamente signifique algo literal, sobrenatural, mas sim a influência de Quint sobre Miles, ou a marca que ele deixou na mansão e em todos os moradores, o trauma que avassala uma família inteira com tristeza, frustração e medo – de seu retorno ou do legado que o abusador deixou para trás, esteja morto ou não, seja fantasma ou não.


Sobre o episódio de hoje: realidade, medo e frustração. Vidas que foram desperdiçadas para saciar um homem vazio e violento. Um terror tão verdadeiro e presente no nosso mundo, que me recuso a chamá-lo de ficção. Uma reflexão que fica após esta hora bem gasta é a de que a realidade sempre supera a ficção e que o mais verdadeiro e profundo terror é aquele para o qual fechamos os olhos todos os dias.