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  • D. C. Blackwell

Primeiras impressões de Dracula



Bem-vindos a mais uma matéria do Escurinho do Cinema!

        Eu sou D.C. Blackwell e hoje eu venho falar um pouco de Dracula, a nova série da Netflix. Bem, como eu li o livro faz muito pouco tempo, decidi olhar o primeiro episódio, e gostaria de começar dando um conselho a todos:

Não leia o livro antes da adaptação. NUNCA.

        Isso vale pra qualquer obra. Eu me sinto obrigado a esclarecer, neste mesmo parágrafo, que embora a minha impressão geral da série tenha me feito desistir de seguir assistindo, achei a série realmente muito boa. Meu problema com a adaptação é que, como leitor da obra original, eu me senti traído com algumas decisões de roteiro – quase todas as que envolvem mudança na trama. Isso, entretanto, nada tem a ver com a qualidade da série. Digo isso porque pra que eu concebesse o clássico, precisei me inserir no contexto literário da época. Vou me explicar: 

        O livro de Bram Stoker, de 1897, é naturalmente uma referência para a cultura inglesa da época. Drácula é tratado como um monstro incapaz de amar e de crescer psicologicamente. A condição de vampiro estagna sua mente, ou como o próprio Van Helsing diz, “ele possui um cérebro infantil”. Ele não é um ser humano e tampouco age como um. Todas a quem ele transforma – sempre mulheres, todas suas noivas – viram monstros que perdem total consciência depois de transformadas - monstros sem coração e sem personalidade. O grupo que caça o Drácula é composto de vários homens, todos envolvidos com ciência e catolicismo. Cavalheiros. A trama, embora simples, nos conquista pelo formato do texto, todo separado em diários e cartas escritas pelos personagens centrais. Em suma, a conduta racional, a moral e a fé são exaltadas no livro de maneira a guiar o leitor pelo caminho do que é o homem inglês perfeito num sentido sociocultural. Hoje em dia estamos mais acostumados com personagens centrais cinzentos ou que não têm boa conduta. Hoje, personagens como Lúcifer e Dexter são vistos como interessantes, e não mais como repugnantes, como provavelmente seriam vistos no século XIX.

        A adaptação da Netflix, por sua vez, nos traz uma série que quebra este paradigma que é a maneira de pensar inglesa de 123 anos atrás. O que ocorre então é uma corrupção da imagem de personagens que eram muito bons e a exaltação de personagens que eram muito ruins. Drácula, por exemplo, como mencionei anteriormente, tem muito poucas falas no livro. Na série, ele parece muito melhor construído, embora a maneira como ele se comporta pudesse ter sido trazida mais para perto da origem das suas lendas. Não me incomodou em nada o fato de ele ter mais personalidade, mas sim o fato de isso ser feito de maneira que quebra com as suas origens. Drácula foi um guerreiro, inspirado num nobre degenerado e sádico que empalava seus inimigos como sinal de força e de poder. Na adaptação, a primeira impressão que tive é de que ele até que é um cara engraçado – HÁ! Ótimo senso de sarcasmo, cara, parabéns. Jonathan Harker, que no livro é nada mais que o nosso personagem central e aquele que dá o golpe fatal no famigerado vampiro, tem uma participação completamente diferente e também muito curta na série. Acho que, de todos os pontos, este é o que cria o maior abismo entre a obra original e a adaptação. E isto ficará bem claro para o espectador que também é leitor já no primeiro episódio.



        Por vários momentos eu fiquei muito interessado na série, de verdade. Embora nos primeiros cinco minutos assistindo eu precisasse resistir ao meu impulso de querer desligar a TV, segui assistindo e me deparei com conceitos muito interessantes e personagens surpreendentemente legais que no começo não parecem ser tanto assim. Momentos muito interessantes a sobressaltar: As ditas salas do castelo do Drácula que no livro são barradas e o Harker nunca consegue entrar. Achei demais essa adição à mitologia do vampiro, na qual os monstros que o Drácula produz não são realmente vampiros, mas algo... diferente. Na série, as noivas dele são, na verdade, prisioneiras. No livro, elas são umas vampiras que estão sempre rindo de deboche de tudo, e não têm real papel a desempenhar. Amei essa reconstrução! 

        Sobre personagens: Gostei da Mina! Sim, ela é parecida com a Mina do livro e certamente vai se tornar ainda mais forte ao longo da trama da adaptação, da mesma maneira como ela se fortalece no livro. Eu também amei o Jonathan, pois ele é o mesmo Jonathan do livro, porém numa versão alternativa dos fatos - coisa que todas as adaptações de Dracula fizeram até hoje, isto é, fazer sua própria versão da obra, moldando e desprezando fatos ao bel prazer dos diretores e roteiristas. Amei a Dra. Van Helsing e realmente não ligo que no livro ela fosse um senhor de idade. Achei o conceito da personagem muito interessante e a atriz é excelente! Diferente do livro, em que Van Helsing é uma pessoa totalmente venerável e de excelente porte e formalidade, a versão adaptada é ácida, sagaz e controversa.

        Eu vou esperar um pouco ainda pra ver se dou uma chance à série. Ela realmente parece muito boa, mas ainda estou apegado demais ao roteiro original. O segredo é encarar como uma história totalmente diferente, porque é. Produzida e roteirizada em 2019/20, jamais poderia se parecer com a obra original, pois ambas obras possuem mentalidades completamente diferentes.

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Um beijo - de vampiro -, 

D.C. Blackwell.