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  • D. C. Blackwell

Millennium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

A adaptação cinematográfica do homônimo de Stieg Larsson é, sem sombra de dúvidas, uma das tramas de investigação mais autênticas e interessantes das ultimas décadas. E o longa de Niels Arden Oplev — sim, estamos falando da versão sueca — transpira uma intensidade e emoção que poucos do gênero conseguem alcançar, e de maneira autêntica.


O thriller começa com Mikael Blomkvist, o editor-chefe da Millennium, um famigerado jornal de convicções ideológicas inabaláveis, sendo condenado após ter caído em uma armadilha de um homem corrupto. Abatido pela rasteira que recebeu, acaba aceitando o trabalho de localizar o responsável pelo suposto assassinato de Harriet Vanger, que desapareceu 40 anos atrás sem deixar pistas — ou assim todos pensavam. Em paralelo, Lisbeth Salander, uma hacker com um passado perturbador, co-protagoniza essa história observando de longe o trabalho de Mikael enquanto precisa lidar com um chantagista estuprador.



O roteiro faz jus ao título. Ao longo dessas 2 horas e meia de filme, observamos com desgosto vários homens despejando o mais puro ódio sobre as mulheres através da violência, do abuso sexual e da negligência, tudo sobre a óptica precisa e honesta de Larsson, que foi jornalista a vida inteira e aplicou verdade o suficiente em seus livros para que esta pudesse banhar seus sucessores audiovisuais. Não só na óbvia cultura global e histórica responsável pela propagação da misoginia e do machismo, mas também na arte da investigação criminal. Millennium me apresentou ao conceito do trabalho jornalístico investigativo mais realista com o qual já tive o prazer de me deparar.


A atuação, as cenas cruas e a trilha gélida se somam numa obra completamente pé no chão e que me lembra de Bom Dia, Verônica em alguns sentidos. A profundidade dos personagens e a maneira como dialogam entre si é simplesmente perfeita: Mikael e Lisbeth são como água e vinho, dia e noite. Ele é o panteão da verdade, aquele que quer, acima de tudo, trazer à luz as maldades dos homens para que sejam devidamente julgados pela lei, enquanto Lisbeth é a vingança encarnada, agindo nas sombras, movida pela necessidade de sobreviver e dar a volta por cima, revidando cada golpe da vida com dez vezes mais violência e fazendo justiça com as próprias mãos. Ambos são dois lados da mesma moeda e se complementam em total sincronia na trama, tornando-se imbatíveis juntos, além de precisarem um do outro para crescerem e amadurecerem como indivíduos.



O longa é bastante sensorial, e o espectador precisa ficar atento aos detalhes. A câmera vai focar numa imagem, num texto, e será papel dele prestar atenção e surpreender-se, ligando os pontos da investigação junto de Mikael e Lisbeth. Esse tipo de interatividade acabou se tornando fundamental para mim, porque não há nada mais divertido do que ficar tentando antecipar a revelação do mistério. Mais gostoso ainda é falhar em todas as tentativas, tornando a revelação uma surpresa chocante. Para quem não conhece ainda, O Assassinato No Expresso Do Oriente, de 2018, é uma ótima pedida nesse mesmo clima, porém com bem mais leveza e muuuuito menos violência!


O final do longa me deixou em choque. E agora, estou ansioso para unir as pontas soltas com a continuação!


E vocês, o que acharam?