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Mulan - a versão que eu esperava



Salve, salve, galera! No início do ano, havíamos anunciado em nossa agenda de lançamentos o filme Mulan, marcado inicialmente para o dia 26 de março nos cinemas. Entretanto, com o início da pandemia e o fechamento dos cinemas como medida de isolamento social, o filme foi adiado.


Foi remarcado para 23 de julho e, mais uma vez, adiado para 31 de agosto. E teve mais: depois da última data, foi adiado por tempo indeterminado. Havia, ainda, a indefinição sobre fazer o lançamento nos cinemas ou diretamente na plataforma de streaming da Disney, o Disney+. Após muita discussão, intensas reuniões e períodos de indefinição sobre o futuro, Mulan finalmente teve sua estreia confirmada para o dia 4 de setembro, através da plataforma digital.


Com todos esses adiamentos, ficou aquela dúvida no ar se valeria a pena ou não aguardar para lançar diretamente nos cinemas ou colocar ele de vez via streaming. Era uma incógnita: ou o filme era muito bom que seria uma pena lançar ele em meio digital e perder uma baita bilheteria ou o filme era muito ruim e seria melhor lançar por via digital e não correr o risco de ter bilheteria baixa. Depois do fiasco de Artemis Fowl - O Mundo Secreto (fizemos resenha dele no nosso site), confesso que fiquei com os dois pés atrás sobre o longa.


Como somos políticos honestos, nosso lema é “promessa de campanha é promessa cumprida”… e aqui estamos com a resenha do live-action mais aguardado de 2020. E ele não decepcionou! Pelo contrário, superou as expectativas que eu tinha sobre o filme. Conseguiu abordar muito bem vários aspectos da cultura oriental, além de trazer ação, emoção e aventura de forma magistral.


A trama gira em torno de Hua Mulan, uma guerreira que, desde pequena, tem forte Chi (a força interior, algo como “A Força” para os jedis na saga Star Wars). Entretanto, é obrigada a seguir as tradições da família e honrar seu legado através do casamento. Com a guerra iminente entre o império e o exército de Böri Khan, o pai de Mulan, Zhou, oferece-se para lutar, uma vez que apenas filhos homens podem fazer parte do exército do imperador.


Contudo, Mulan toma o lugar do pai às escondidas e se finge de homem para entrar no exército e honrar o nome da família, enfrentando Khan e sua feiticeira, Xian Lang. Mulan terá de descobrir a si mesma e os verdadeiros significados dos três princípios (lealdade, coragem e verdade), além de criar seu próprio princípio.


Apresentações feitas, vamos à análise. Primeiramente, esqueça a animação bonitinha da Disney, criada com o estereótipo ocidental e feita para divertir e entreter crianças… a pegada do filme é outra bem diferente. Nada do simpático dragão Mushu, dublado por Eddie Murphy na animação, nada de interesse amoroso de Mulan por Li Shang e nada do vilão Shan-Yu.



Falarei, primeiramente, dos aliados, vilões e personagens de apoio do filme. O comandante Tung, interpretado por Donnie Yen, foi um dos personagens que mais gostei. Extremamente dedicado, leal e fiel aos princípios, veio carregado de postura imponente e pulso firme, desde o treinamento do novo exército do imperador até a batalha final.


Um verdadeiro líder, revestido de honra, lealdade e caráter inabalável. Isso fez dele o mentor ideal para Mulan que, para esconder sua real identidade, disfarça-se de Hua Jun (falarei sobre isso mais à frente). A inserção do personagem ao filme foi fantástica e trouxe maior ar de seriedade à trama.


Chen Honghui, interpretado por Yoson An, até traz certo ar de alegria à trama, principalmente em alguns flertes sobre Jun (ou Mulan disfarçada). A interação entre eles é muito bacana de se ver e a própria sinergia de Chen com os outros colegas de exército é bem interessante e divertida.


Alguns fãs mais acirrados do desenho até sentiram certa falta de Li Shang, par romântico de Mulan na animação. Mas, sinceramente, achei até melhor assim. Uma vez que a diretora Niki Caro teve desde o início a intenção de dar ao live-action ares mais sérios, entendo que essa mudança foi positiva.


Quanto à família de Mulan, um show à parte em todas as cenas. Zhou (Tzi Ma), o pai, Li (Rosalind Chao), a mãe, e Xiu (Xana Tang), a irmã, conseguem ter perfeita interação e sinergia com a protagonista. Xiu tem participação mais discreta na trama, mas, nos momentos em que aparece, interage muito bem com os demais personagens.


A mãe de Mulan é a típica mãe, preservando ao máximo as tradições e a honra da família e depositando nas filhas grande responsabilidade. Tem postura imponente e firme, evitando que Mulan saia de uma linha de postura impecável (até na hora de servir o chá). Já, Zhou, é o típico guerreiro que traz em sua espada longa história de batalhas e o peso de manter o nome da família respeitado.


Aliás, enquanto a relação entre mãe e filha parece ser um pouco mais tensa, entre pai e filha as coisas são bem diferentes. Zhou apoia e incentiva a filha e, mesmo nos momentos em que parece fazer com que a filha desista de ser quem está destinada a ser, a encoraja a encontrar seu verdadeiro eu e seguir lutando por isso.


Talvez, minha única ressalva em relação a personagens seja com Jet Li, que interpretou o Imperador. Tudo bem que o personagem não exigia tanto e que havia os que lutavam por ele, mas eu estava na expectativa de ver ele descendo a porrada em alguém. Curto muito o ator (acho ele fantástico no filme Cão de Briga) e fiquei com aquele gostinho de que faltou ação da parte dele. Tudo bem que teve uns poucos instantes de luta contra Böri Khan e que a protagonista é Mulan, mas poderiam ter alongado um pouco o embate entre o Imperador e Khan… fora isso, atuação irrepreensível do ator.


Böri Khan é o típico vilão feroz e sem escrúpulos. Usa todas as armas possíveis para conquistar seus objetivos e derrotar seus inimigos. Ambicioso, pretende derrubar o imperador e assumir o controle do império. As feições dele lembram um pouco as de Danny Trejo, com a mesma cara de urso amassado, pronto para devorar sua presa.


A responsabilidade de dar vida ao personagem fica a cargo do ator Jason Scott Lee, conhecido por dar vida a Bruce Lee no filme Dragão: A História de Bruce Lee, de 1993. O ator traz muito peso ao personagem, sendo um vilão de respeito. As lutas entre ele e Mulan são impecáveis, com coreografias muito bem ensaiadas e executadas, nas quais o mínimo erro pode causar um acidente.


Outro ponto interessante sobre o vilão é a relação entre ele e Xian Lang. Ele pretende dominar a feiticeira e a utilizar para seus fins, mesmo sabendo que ela poderia destruí-lo. Aliás, caso a Disney tivesse interesse em fazer uma continuação do filme, essa relação entre eles poderia ter sido abordada de forma diferente. Por um lado, gostaria que isso acontecesse, mas, por outro, fico feliz de as coisas terem acontecido da forma que ocorreram. Assim, evita-se a tentação de se fazer uma continuação desastrosa no futuro.


Falando sobre Xian Lang, ela é perfeita no filme. Tem os lados bom e mau em equilíbrio, e isso fica bem evidente em vários momentos. A atriz Gong Li pode não ser tão conhecida, mas já atuou em filmes incríveis como Lanternas Vermelhas (1991), Memórias de uma Gueixa (2005) e A maldição da flor dourada (2006).



A relação entre Xian Lang e Mulan lembra um pouco a da Princesa Aurora com Malévola. Como todo trailer acaba trolando a gente, comecei o filme com a certeza de que ela seria uma vilã cruel e impiedosa, mas fui positivamente surpreendido pela abordagem que fizeram entre as duas. Aliás, o final dela foi surpreendente e (por que não dizer) emocionante.


Finalmente, chegamos à nossa protagonista. Desde o início do filme, ainda em sua versão criança (interpretada por Crystal Rao), é impossível não se encantar com nossa heroína… um show de fofura logo no início! Anos à frente, já na versão principal, quem dá vida à personagem (e de forma brilhante) é Liu Yifei. Se você não conhece a atriz, recomendo o filme Once upon a time (2017)... impossível não se apaixonar por ela! Um show de interpretação em um longa simplesmente lindo, maravilhoso e perfeito!


Mais uma vez, ela nos entrega uma atuação digna de Oscar de Melhor Atriz, sem exageros, excessos ou erros. Consegue se passar por homem em meio aos outros soldados sem precisar utilizar acessórios, artifícios ou maquiagem pesada... apenas talento e um pouco de loucura. Além disso, consegue trazer a carga emocional que a personagem necessita em todos os momentos da trama.


Ao mesmo tempo em que vemos uma personagem impulsiva, insegura e assustada, descobrimos uma verdadeira guerreira em seu interior. A interação com os outros personagens é natural e sem precisar muito esforço. Para mim, a atriz já pode ser considerada finalista da disputa de Melhor Atriz na próxima edição do Oscar, sem a menor sombra de dúvidas.



Menção honrosa para uma substituição que gerou certa polêmica entre os fãs: a saída de Mushu e a entrada da fênix no live-action. A diretora Niki Caro explicou em entrevista que, dado o estilo mais sério do filme, não teria como usar o personagem brincalhão e divertido da animação, uma vez que o dragão é o símbolo de respeito, força e poder dentro da cultura oriental, tanto que a animação não foi bem aceita entre o público chinês.


Em seu lugar, a diretora introduziu a mitológica fênix, um símbolo de renascimento e nova vida. A ave simboliza a representação espiritual dos antepassados e o forte elo entre Mulan e seu pai, protegendo a protagonista em vários momentos. Jogada de mestre da diretora, que conseguiu trazer uma criatura mitológica de representação feminina (uma vez que o dragão é a representação masculina), e cujo impacto na trama é muito bem trabalhado.


A trilha sonora também destaca-se por não invadir nem roubar a cena nos principais momentos do filme (já vi esse problema em alguns longas). Possui muito equilíbrio e harmonia com a trama como um todo, com destaques para as músicas Loyal Brave True e Reflection, ambas de Christina Aguilera, e uma versão lindíssima de Reflection cantada em chinês pela própria atriz Yifei Liu.


A parte de coreografia das lutas é esteticamente perfeita e, mesmo com alguns “exageros” à la Matrix (para alguns críticos mais afiados, isso foi um exagero), foi um dos pontos fortes do filme. Um dos critérios de escolha do elenco era a habilidade em artes marciais, a credibilidade nos movimentos, de modo a soar o mais natural possível na gravação das cenas. E as presenças de Donnie Yen, Jason Scott Lee e Jet Li no elenco ajudaram a dar essa naturalidade e credibilidade às coreografias.


Agora, falar de Mulan sem falar de figurino, cenografia, maquiagem e fotografia é quase um crime passível de execução… perfeição é pouco para elogiar o que fizeram com o filme! Cenários exuberantes, iluminação perfeita e maquiagem impecável. O realismo em todos os pequenos detalhes com roupas, adereços e maquiagens típicas fez abrilhantar ainda mais algo que já era incrível.



Esteticamente, o filme é impecável, sem pôr qualquer objeção a qualquer detalhe. Percebe-se a seriedade e o carinho com que um filme é produzido quando você começa a reparar nos mínimos detalhes e vê que eles fazem toda a diferença no filme… e Mulan fez isso com maestria!


Outro ponto que achei fantástico é a forma com a qual a famosa ideia da Jornada do Herói é trabalhada. Para quem não conhece, a Jornada do Herói é uma estrutura narrativa criada por Joseph Campbell, na obra O Herói de Mil Faces, e posteriormente adaptada por Christopher Vogler, na obra A Jornada do Escritor.


Essa estrutura narrativa é composta de doze etapas, que descrevem toda a curva de crescimento do protagonista, os desafios, as negações, obstáculos, conquistas e ensinamentos ao longo da jornada. E, em Mulan, essa jornada é trabalhada com extrema maestria e perfeição (again!). Todas as etapas estão ali, nos lugares e momentos certos e das formas mais precisas para a trama. Meus elogios aos roteiristas Rick Jaffa, Amanda Silver, Lauren Hynek e Elizabeth Martin… vocês foram espetaculares!


Finalizando nossa análise, não posso deixar de destacar algo que analiso muito nesse estilo de filme, que são os ensinamentos (o final da nossa Jornada do Herói). Valores como coragem, lealdade e verdade são pilares importantíssimos, não somente dentro da cultura oriental, mas em qualquer cultura ao redor do planeta. Esses alicerces moldam nosso caráter e nos guiam para uma vida de honra. Infelizmente, eles estão sendo esquecidos por nós muitas vezes.


A pandemia de coronavírus escancarou essa falta de valores na sociedade e, concordando você ou não, a humanidade deixou de ser humana há muito tempo, embora tenha conseguido velar parte disso e esconder a sujeira embaixo do tapete. Agora, as cortinas foram arrancadas de vez e conseguimos ver isso com maior clareza.


Outro valor extremamente importante criado pela nossa protagonista e que, junto dos três principais, é a base de quem somos e de quem nos tornaremos, é a devoção à família. Honrar nossos ancestrais, aprender com eles e preservar seu legado é algo que deveríamos começar a levar mais a sério. Valores como humildade, amor, gratidão, honestidade, empatia e educação, quando devidamente valorizados e respeitados, são tão poderosos que podem tornar nosso mundo melhor.


Resumo da ópera? Mulan é o filme que merece ser visto, revisto, analisado e discutido várias vezes. Tudo no filme remete à perfeição, principalmente nos pequenos detalhes. Infelizmente, por conta da pandemia, ele foi lançado apenas no streaming, mas é o tipo de longa que merece ser visto nas telonas, com direito a combo de pipoca, refri e chocolate… e por mais de uma vez!


Inúmeras críticas do filme reforçam o que achei, senti e entendi de tudo o que Mulan quis passar. Tanto especialistas quanto espectadores já o consideram como o melhor filme feito pela Disney até hoje. Sinceramente, quando toda essa crise passar, torço para que a Disney mostre sua honra e faça o lançamento nos cinemas de todo o mundo. E, se isso acontecer, estarei na sala com meu combo, curtindo cada segundo desse filme épico, mitológico, maravilhoso e, simplesmente, PERFEITO!!!



Do fundo do coração, fazia tempo que não me empolgava tanto com um live-action... Mulan conseguiu superar todas as minhas mais intensas e positivas expectativas! Se você ainda não assistiu, não perca tempo e curta já esse filme que já deixou sua marca em nossos corações! Nos vemos no próximo filme… tem muita coisa boa chegando, e estaremos antenado em todas as novidades. Até mais!