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  • D. C. Blackwell

Terror No Ano Novo - O Acampamento (Killing Ground)

O Acampamento é um filme australiano de baixo orçamento que conta com apenas 1 hora e 25 minutos de tela e, sob a premissa de um filme de terror envolvente e sagaz sem perder profundidade em um nível essencial, surpreende positivamente.


O longa tem o formato típico do subgênero do terror pouco reconhecido que envolve sempre uma dupla de sociopatas que caçam uma família ou um casal em algum lugar afastado. Parecido com o subgênero slasher, difere na maneira como a história é contada e também no sentimento que se quer passar na obra. Enquanto que no Slasher o assassino é solitário e calado, impondo medo bruto e puro nos personagens e espectador, este subgênero faz quase que um estudo sobre os assassinos: podemos entender a psicologia por trás da dupla mórbida, que por sua vez adquirem certo protagonismo ao demonstrarem personalidade, passado e até mesmo desenvolvimento ao longo da trama. Outro filme que se encaixa nesta categoria, embora trabalhe bem mais o gore e os famosos jumpscares – ou sustos -, é A Casa De Cera.



A direção atinge nossos nervos com precisão ao utilizar sua escassa trilha sonora e até mesmo a ausência dela majestosamente, de forma a nos deixar na expectativa de todas as piores coisas que podem acontecer com nosso casal protagonista. Não obstante, o roteiro nos leva por um triplo caminho que nos revela tanto os protagonistas quanto os antagonistas bem como também as antigas vítimas, cujo inevitável e tenebroso fim desejamos recusar a todo custo, mesmo sabendo que seus destinos estão selados. As viagens ao passado intensificam este nosso senso de perigo e ajudam a criarmos uma espécie bizarra e anormal de simpatia pelos assassinos, ou ao menos Chook, que é o novato e que demonstra, em certo ponto, uma pequena fagulha de lucidez e que, talvez em outra situação, tivesse dado meia volta quando lhe fosse apresentada a oportunidade de fuga daquela loucura que era sua parceria criminosa.


A parte que cabe a Sam e Ian nesta história é bastante interessante. Sua jornada é, em grande parte, sobrevivência. Porém, dentro dessa simplicidade, há alguns detalhes que denotam certo grau de complexidade e até mesmo um grau de profundidade e de sentido à história. Ian é um médico, e, portanto, fez um juramento que o compele a salvar vidas. Entretanto, diferentemente de Sam, Ian não possui um contato muito forte com a literatura ou com certos vínculos empáticos. Sam é o oposto disso: leitora ávida que coloca sua vida em jogo para proteger uma criança inocente da morte certa. E quando Ian foge para buscar ajuda, atitude bastante sensata, porém, julgada como covarde, Sam acredita que ele fugiu para proteger a criança. Confiante disto, ela nada teme nas mãos de seu captor, orgulhosa do noivo. Porém, quando Ian revela a verdade, o clima entre os dois muda completamente, mesmo em meio a uma situação tão aterrorizante como a que estavam, sob a mira de uma arma, em fuga com seu captor pronto para atirar: ela passa a desprezá-lo, quase odiando o homem que amava. E quando tudo acaba, o filme termina na cena perfeita, deixando ambígua a relação deles no fim.



A grande verdade é que ninguém sabe como reagiria diante de situações de extrema necessidade de sobrevivência. Uma pessoa pode ser julgada por seus atos – sua coragem ou covardia – sob o efeito do terror absoluto? Quando a morte – ou um destino pior que a morte – se apresentam diante de nós, e uma atitude urgente é requisitada, agimos de acordo com nossos instintos de preservação. Na vida real, poderia um momento de terror nos despir de toda dignidade? Ou seriamos capazes de superar nossos instintos através de um sentimento mais poderoso? A grande genialidade do longa de Damien Power é o extremo realismo nas escolhas de nossos personagens, levando até mesmo aqueles que vivem pelo bem à zona cinzenta de suas moralidades, colocando em cheque a bondade, o amor e a coragem quando mais se precisa destes.