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  • D. C. Blackwell

O Farol

       


Não sei o que falar. Um filme desses deveria ser considerado um clássico instantaneamente. Lovecraft teria chorado de emoção com a conclusão dessa obra de arte que é O Farol. E não, não são apenas elogios que eu dou à obra:


        O Farol foi planejado para ser um sucesso do horror cinematográfico. Sua narrativa aborda elementos psicológicos de maneira extremamente visual e nos choca com o realismo grotesco de dois homens moralmente cinzentos trabalhando em isolamento em um farol dito incrivelmente distante da civilização. Os homens bebem, peidam, se masturbam e vomitam, se agridem e gritam juntos. Este é um horror para quem tem a sensibilidade necessária para captar as mensagens que o filme nos transmite.



         O fato de o filme ser gravado em preto e branco e numa tela Fullscreen (contrário de Wide, ou seja, uma tela de proporção de 4x3) também não é por acaso. Estamos tão acostumados ao Widescreen que o nosso cérebro fica desconfortável ao ter quase metade da sua visão cortada, e esse desconforto também serve para nos dar uma sensação de encurralamento, de claustrofobia, situação esta que cabe muito bem no contexto do filme. O preto no branco também reduz a nossa percepção e tira o equilíbrio das cores, provocando uma dicotomia sobre os eventos apresentados. Luz e escuridão duelam como a mente dos personagens duela contra a insanidade. O som também é fundamental para alimentar o horror do espectador, uma vez que ele nos oprime com os barulhos típicos do mar em situações em que não deveria. Várias vezes sentimos como se estivéssemos nos afogando no mar revolto, enlouquecendo ao som ensurdecedor da caldeira do farol ou atormentados pelas gaivotas inquietas.



         O elemento lovecraftiano mencionado anteriormente não está apenas na crescente perda de razão dos protagonistas, mas também no sobrenatural. Esta parte é vital para a trama, já que o sobrenatural é confirmado ao final do filme, de maneira brilhante. Havia algo na estátua de sereia, havia algo no mar, havia algo nas gaivotas e definitivamente havia algo no próprio farol. Algo que era capaz de fazer com que o velho Thomas se regozijasse e não abrisse mão de sua posição de vigília à luz do farol. Algo capaz de fazer o mais são dos homens urrar em uma profusão de risos prazerosos e gritos aterrorizados. Nós, espectadores, nunca saberemos, não é nosso papel. Aqui, mal somos capazes de diferenciar fatos de devaneios. E conforme a trama avança e as mentes dos nossos protagonistas são vagarosamente devoradas pelas brumas do mar tempestuoso à beira do farol, menor é a diferença entre estas duas opostas. 


        Nunca antes fiquei tão perturbado assistindo um filme, e nunca antes este sentimento se misturou tão bem com o prazer satisfatório de estar assistindo a uma obra-prima.

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