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  • Ana Franskowiak

O Silêncio do Pântano e o Clamor do Lodo

Saudações Cósmicas!

“Para matar, é essencial despojar a vítima da condição de ser humano que sente, que ri e que chora”.

E dessa forma, direta e impactante, dialogando com os temas que abordo na minha escrita, seja artística, seja acadêmica, que O Silêncio do Pântano, com roteiro de Carlos de Pando e Sara Antuña e direção de Marc Vigil, me fisga e me puxa para suas aterradoras profundezas em cerca de cinco minutos de película. E escrevo na esperança de que fisgue vocês também!


Baseado no romance de mesmo nome e autoria de Juanjo Braulio (também autor de Sucios y Malvados, o qual, só pelo título, eu já incluí na minha longa lista de livros a adquirir), O Silêncio do Pântano se passa em Valencia, cenário do súbito e misterioso desaparecimento de um professor universitário do curso de economia e de escândalos envolvendo corrupção a níveis homéricos e repulsivos, com a participação massiva e direta de setores que deveriam combatê-la. E quem melhor para narrar tais fatos com eloquência e metáforas geniais que… um escritor? Esse é Q, interpretado por Pedro Alonso, o Berlim de La Casa de Papel, ex-jornalista, convertido então em romancista exitoso e admirado por uma legião de fãs para a qual lê, em um evento seguido de uma sessão de autógrafos, o perturbador excerto de sua obra que enceta o presente texto.

Haverá uma continuação da obra, expondo as motivações mais íntimas do protagonista assassino, indaga uma fã. Não pensei nisso, replica o autor. Nesse caso, por que ele mata, ela treplica. Porque pode, pontua o autor, devolvendo o livro autografado. Livro concebido em um casebre à beira de um pântano. Silencioso, afastado. Um bom lugar para se concentrar, escrever e fazer o que mais a sua vontade ou poder ditar. Eu costumo brincar com colegas da escrita, tendo externalizado essa brincadeira em um evento do qual participei, que um dia nossas pesquisas em nome da verossimilhança nos renderiam uma investigação ou, no mínimo, manifestações preocupadas da parte de pessoas mais íntimas. No caso de Q, nenhuma das alternativas é levada a cabo. Ainda que ele logo encontre modos eficazes e torpes de aplicar seus saberes até então teóricos.


Com um olhar analítico, preciso, e, por que não, desiludido até o cerne acerca das instituições encimadas pela auréola da respeitabilidade, Q divaga e descreve sobre a bela Valencia e sobre as pessoas que a habitam. Outrora os pântanos eram visíveis onde hoje a selva de concreto predomina. Todavia, não ser visto não é sinônimo de ter sido extinto. Ocorre que ele foi empurrado para baixo. Cada vez mais baixo, ainda que, vez ou outra, espreite na superfície como um cadáver enterrado às pressas. É nesse pântano que se prolifera uma biodiversidade que abarca criaturas das mais repulsivas e ínfimas, às mais vistosas e invejáveis, ainda que ocas por dentro. De um extremo a outro do ecossistema pantanoso, das formas de vida mais rasteiras às mais altivas, passando pelas intermediárias, com as quais o narrador se identifica, todas buscam devorar umas às outras, e, no meio do caminho, fartam-se do fertilizante que melhor nutra suas ânsias e ganâncias, geralmente composto por fungos que, caso sejam extirpados, não farão falta, abrindo caminho da forma que podem entre o lodo que as rodeia. Metáfora poderosa que remete a O Lodo, conto de Murilo Rubião, ainda que o mesmo chafurde em torno de outros lodos ocultos.


A cena inicial evoca o criativo Por um Fio e certo incômodo questionamento: quem nunca vivenciou injustiça semelhante no polo passivo ou ativo? Quem sabe o que se passava nos pensamentos das partes envolvidas e que, talvez, de outra maneira não tivesse conduzido a tão trágico desfecho? Tantas ideias vêm ao mundo concreto sem que pensemos nas suas consequências… e tantas pessoas são consideradas menos que nada até que algo aconteça. Até que alguém famoso morra, bem disseram Janick Gers e Bruce Dickinson. Não se pode permitir que alguém tão influente desapareça. Não se pode permitir que ninguém desapareça, certo? O sugestivo ambiente de uma procissão religiosa coloca lado a lado a delegada e a chefe do tráfico em uma das cenas mais emblemáticas ao lado da quase cômica cena do restaurante que se presta a quaisquer expedientes exceto o indicado pela placa. Invisíveis veem muito e pensam tirar proveito de sua posição funcional em um esquema do qual não podem sair a menos que alguém permita. Raramente sempre essa saída se dá de modo amistoso, a exemplo da chocante cena envolvendo imigrantes, provavelmente, refugiados.

Ter um escritor como protagonista da trama foi um fator decisivo a fomentar meu interesse (não por acaso, minhas obras preferidas de Stephen King também são protagonizadas por escritores. Mas deixemos isso para outro texto), e seu desenrolar coeso e pragmático prendeu minha atenção do início promissor ao final reflexivo que boiará longamente nessa mente pantanosa que vos escreve. Destaque para a atuação de Nacho Freseda como Falconetti. Juro que não tem a ver com a camiseta do Metallica.

Cuidado com o pântano, com aquilo que suas águas turvas ocultam e, sobretudo, com a forma como você lida com tais descobertas inevitáveis. Do widzenia!