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  • D. C. Blackwell

O terror crítico e tipicamente brasileiro de Morto Não Fala


Vamos direto ao ponto:


Stênio é pobre, corno, pai relapso, passa por condições de trabalho abusivas e fala com os mortos. Sério, quem não se identifica com ao menos uma destas características simplesmente não chegou à vida adulta ainda. E, para piorar, Stênio ainda usa muito mal o dom que possui, mostrando que talvez boa parte do fracasso dele venha de si mesmo. Ainda assim, a responsabilidade que ele tem sobre os próprios erros atinge seus filhos, em especial Edson, que titubeia em direção ao crime, conduzido pela raiva e frustração que sente pela vida que foi escolhida para ele por seus pais: uma vida de pobreza, miséria e absoluta falta de dignidade, presentes não somente depois da revelação do caso de Odete com Jaime, mas desde o começo da trama, sendo esta mesma perspectiva a provável responsável pela decisão de Odete de trair Stênio em primeiro lugar. Stênio é um homem simplório, frustrado, acomodado e de pouco caráter – o próprio motivo de toda a trama começar se dá por conta de uma vingança boba e segue por caminhos tortuosos, marcados por vários momentos em que ele só não tomou o caminho mais fácil e moralmente questionável por inconveniência do destino.



Uma das coisas que mais impressionam e se destacam nesse longa é a proposta: você morreu, e a única pessoa que pode ouvir seus lamentos é um legista que recebe centenas de cadáveres por semana. Todas as suas dores, lamentos, arrependimentos, nada disso importa mais. A relação de Stênio com os cadáveres é praticamente a mesma do mítico Caronte. Momento impactante foi quando a sala mortuária ficou lotada por conta de um deslizamento, mostrando os horrores da vida real de quem pertence às classes socais menos favorecidas. Os gritos, o choro, o desespero de perder tudo, inclusive a vida, deixando pais, filhos, amigos, tudo... estas são coisas reais que só tiram o sono de quem assiste de perto estas tragédias. O filme é uma ode às classes mais pobres e toca num ponto bastante polêmico, que é o efeito do meio em que o indivíduo vive na maneira como ele se desenvolve. Morto Não Fala deixa bem claro: ninguém nasce criminoso, nem todo mundo tem o luxo da escolha sobre agir certo ou errado, e mesmo que a opção exista, cada indivíduo é marcado por seus próprios traumas, tendo em vista que a Vida é uma professora cruel para muitos de nós. E que real poder de decisão tem uma pessoa que foi condicionada a tomar um caminho determinado por toda uma vida, desde sua infância?


Quanto à execução da obra, receio não ter muitas coisas boas para dizer. Abençoado com uma proposta brilhante, Morto Não Fala parece abrir mão do que o faz único e perder-se em suas tramas, sem saber ao certo onde quer chegar ou como. O enredo nos leva na direção inicial de uma suposta maldição imposta pela própria Morte sobre quem revela os segredos dos que já partiram, mas dá uma freada brusca e pega outra rota, como que se esquecendo da original, transformando-se numa história sobre possessão espiritual, que também é uma briga de casal sobrenatural entre Stênio e a falecida Odete. Esta, por sinal, toma papel de personagem odiosa quando se mostra tão ruim a ponto de tentar a morte dos filhos por vingança ao marido. Antes, ela era uma vítima do meio em que vivia, agora torna-se mais um clichê de filme de terror. Não obstante, algumas decisões não parecem fazer sentido, como por exemplo o fato de Stênio saber que poderia livrar-se de Odete para sempre se destruísse a aliança, mas ao invés disso, ele decidir abandonar os filhos e morrer. Mesmo que ele se sentisse culpado pelas suas ações, ele jamais deveria poder aceitar a ideia de deixar seus filhos sem um pai, por pior que ele fosse na tarefa.

Para finalizar, a trama também não possui um ritmo agradável. Um filme de terror geralmente funciona no ritmo das marchas de um carro. Ele avança até um pico, retorna a um estado mais calmo, então avança para outro pico ainda maior que o primeiro, e o novo ponto calmo já é mais tenso que o primeiro, e assim sucessivamente até a última troca, que leva ao fim derradeiro da história, atingindo um último e extremo pico de emoção antes dos créditos. Morto Não Fala, ao invés de progredir como as marchas de um carro, atinge picos baixos e constantes de emoção e sempre retorna ao mesmo nível de tensão, me fazendo checar de meia em meia hora quanto tempo ainda falta para o final. O tempo pareceu passar mais devagar enquanto eu assistia o filme, e isso, num filme de terror, é bem triste.


Como disse anteriormente, a proposta é maravilhosa, e eu amei ver uma história sobrenatural com médiuns e possessões ambientadas num Brasil verossímil e cru, característica marcante do nosso cinema desde o início dos tempos. É algo novo, original e que transborda potencial. Os diretores e roteiristas brasileiros ainda têm trabalho a fazer, é claro. Parece que se apegam a elementos que funcionam muito bem em cenários de classe média norte-americanos, mas que não se traduzem com fluência para o cenário brasileiro. Há de se entender que jamais poderemos fazer cinema da mesma maneira que outros países – e nem devemos! O Brasil tem uma cultura muito diferenciada, variada e rica e que pode ser aproveitada de inúmeras maneiras em todos os cenários possíveis. Basta explorar com atenção e sem medo de parecer “brasileiro demais”. O Brasil finalmente está experimentando em áreas pouco exploradas, e isso me traz muita alegria. Do longa Disforia, filme que também resenhei aqui no site, para Morto Não fala, há um grande salto, que demonstra que estamos quase deixando de engatinhar, a caminho de darmos os primeiros bons passos em direção a um cinema nacional de qualidade e que atinge as massas.