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  • Ana Franskowiak

Para Amantes Eternos e Eternas da Beleza em Todas as suas Formas

Saudações Cósmicas!

Tilda Swinton, Tom Hiddelston, Mia Wasikowska, John Hurt.

Se esses nomes, por si só, ainda não deixaram sua alma sedenta de uma linda história, eu lhes convido a entrar, beber e algo e… sintam-se livres para fazer pipi no meu jardim, pois tenho motivos… persistentes para ainda não ter consertado o vaso.


Only Lovers Left Alive, ou Amantes Eternos, dirigido por Jim Jarmusch, prima pela beleza explícita envolta em subtextos, conciliando o clássico e o contemporâneo e suscitando reações extremas: ódio ou amor, tédio ou fascínio. Resta evidente que eu pertenço a essa segunda turma.

A trama começa com um diálogo entre Ian e Adam, onde o primeiro, certa noite, vem ao apartamento do segundo, músico para o qual trabalha. À sequência de falas que gera identificação em quem possui algum tipo de envolvimento com o meio musical, todavia, sucede uma estranha requisição: uma bala de madeira que não tenha tocado outros materiais. Ian sai para as ruas de Detroit, empenhado em providenciar mais um pedido do músico recluso que, por sua vez, faz contato via chamada de vídeo com a adorável Eve, cercada de livros em algum lugar na distante Tangier e arrebatada pela ideia de logo voltar a vê-lo, assim como pela leitura de versos de Christopher Marlowe, com o qual mantém sólida amizade. Espere. O filme não se passa nos nossos dias? Sim, adorável neófito ou neófita, e a partir daqui, você já pode imaginar qual o segredo partilhado por esse encantador trio e pela igualmente encantadora, efusiva e levemente inconveniente Ava, irmã de Eve, que vem se hospedar no apartamento de Adam, para seu indisfarçável desgosto (nesses momentos taciturnos, Tom dá a nós, fãs de Sandman uma doce amostra de como ele daria um esplêndido Morpheus. Fecha parêntese!).


Do manancial de simbolismo concentrado em nomes tão simples às referências milimetricamente semeadas ao longo de diálogos e cenários belíssimos, descortina-se uma pérola existencial, que transita pelos diversos estados de espírito experimentados ao longo de uma vida, seja ela breve ou eterna. Por criaturas prosaicas ou dotadas de poderes fabulosos. Debaixo de cores opacas e melodias malsoantes ou sob a iluminação perfeita e trilha sonora impecável.

O enlevo germinado e alimentado pelo amor conjugal e pela arte fornece um abrigo reconfortante e a força necessária para atravessar eras de uma espécie que muda constantemente nos aspectos secundários e quase nada em seu cerne, que, geralmente abriga coisas escusas, evitadas ou ocultadas na frágil ilusão de fazer com que assim elas deixem de existir. Adam, Eve, Ava e Marlowe, não poderiam, nem caso quisessem, usufruir de semelhante autoindulgência. Ainda que suas maneiras de conviver com o inexorável possam divergir (tanto que é essa discrepância a responsável por detonar o conflito iminente desde o mero anúncio da vinda de Ava), é imprescindível encará-lo uma vez que sua sobrevivência disso depende. Afortunadamente, o avanço dos tempos e da tecnologia, permite a civilização de atos permeados por sérias implicações, conforme demonstrado pela quebra de clichês míticos e pela cena final, movida pela urgência, jamais pela banalidade. Destaque para a belíssima apresentação de Yasmine Hamdan e a consideração agridoce de Adam em relação à fama e à sua arte.


Do profundo descontentamento cuja solução foge às capacidades, mesmo de uma criatura sobrenatural, ao alívio cômico proporcionado pelo atrito com parentes de sangue, com toda a ambiguidade abarcada pela expressão (aparentemente a existência de certos mitos mostra-se mais crível que o bom convívio familiar…), Amantes Eternos é um convite a pensar e apreciar, degustado como um delicioso cálice de… vinho! Exceto pelos deprimentes zumbis que motivam a encomenda de Adam, desperdiçando tesouros inestimáveis e efêmeros. Evocando Jon Bon Jovi e Frida Kahlo, seja você uma criatura noturna ou diurna, saiba que não há nada sem amor. E onde não puderes amar, não te demores.

Assistam, leiam, toquem, dancem, façam e fruam de boa arte e do widzenia!