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  • Angers Moorse

Prepare-se para nunca mais dormir após assistir a este filme



“Um, dois, Freddy vem te pegar
Três, quatro, feche bem o quarto
Cinco, seis, segure sua cruz
Sete, oito, fique acordado
Nove, dez, não durma nenhuma vez.”

Salve, salve, galera! Dizem que em toda cidade há uma Rua Elm e que, nela, os sonhos podem se tornar reais… e os pesadelos também. Dizem que nossa mente é uma caixa-preta ainda desconhecida, na qual inúmeros segredos permanecem guardados. E dizem que nossos sonhos são um reflexo de nossa realidade e os pesadelos são nossos mais terríveis medos e temores. E você, em que acredita?


Se você sentiu arrepios ao cantarolar a musiquinha no início desta matéria, sinto informar que é apenas o começo de uma viagem sem volta. E nem ouse tirar aquele rápido cochilo ou viajar para os braços de Morfeu, pois, aqui, o destino é beeeeem diferente.


Wes Craven, em uma noite inquieta e repleta de assustadores pesadelos, faz uma pergunta à sua mãe: se ela poderia entrar no sonho dele para manter o bicho-papão afastado. E a resposta dela, por mais perturbadora que pudesse parecer, mudou completamente sua história: “o sono era o lugar no qual todos nós precisávamos ir sozinhos”. (HUTSON, 2016, 17)


Um homem misterioso encarando olhos nos olhos uma criança, pesquisas sobre exploração dos sonhos feitas por Freud e Jung, os escritos de um místico russo chamado George Ivanovich Gurdjieff, uma linda garota chamada Nancy, o caso real de um garoto que passou quatro dias sem dormir e que morreu após se debater na cama e um valentão da escola chamado Freddy. Junte todos esses elementos e você verá algo fascinante surgir.


Muitas vezes, para fugir de realidades sombrias e desesperadoras, mergulhamos fundo em nossos mundos imaginários e sonhos, na esperança de encontrar um ambiente mais aconchegante. Mas e se nossos sonhos trouxerem a personificação de tudo aquilo que mais odiamos ou tememos? E se esses sonhos pudessem nos machucar de forma tão cruel e real que fosse quase impossível escapar?


Hoje, convido-o a mergulhar bem fundo em um mundo aterrorizante e, ao mesmo tempo, magnífico, no qual um anfitrião o espera de braços - e garras - abertos. Estou falando de A Hora do Pesadelo e seu personagem principal, Freddy Krueger.


Você conhece a história do filme? Sabe como surgiu o personagem? Tem interesse sobre bastidores e curiosidades? Sabe quantos e quais filmes foram feitos na sequência? Então, você é meu convidado a entrar no mundo dos sonhos… e a fugir dele, se for capaz. A partir de agora, welcome to my nightmare!



O criador


Wesley Earl "Wes" Craven, nascido em Cleveland (Ohio) em 2 de agosto de 1939, presenciou a separação dos pais quando tinha apenas 4 anos e perdeu seu pai na véspera de seu sexto aniversário. Teve criação rígida, na qual não lhe era permitido filmes, cigarros, bebidas, jogos de cartas e outros prazeres mundanos.


Não compartilhava da mesma visão religiosa de seus educadores e chegou a admitir que tinha uma visão obscura de si mesmo. Foi apenas na juventude que passou a ter contato com outros filmes e noticiários sobre a Segunda Guerra Mundial.


Nos anos 1960, foi casado com Bonnie e teve dois filhos, Jonathan e Jessica. Anos mais à frente, depois de um primeiro divórcio, casou-se com Mimi Meyer em 1982, divorciando-se dela em 1987. Formou-se em literatura inglesa, filosofia e psicologia, com Mestrado em Escrita e Filosofia pela Universidade Johns Hopkins. Foi professor, diretor, cineasta e roteirista.


Sua lista de produções é extensa e bem diversificada, atuando em franquias como Pânico (entre 1996 e 2011) e A Hora do Pesadelo (entre 1984 e 1994), além de filmes como A Última Casa à Esquerda (1972), Quadrilha de Sádicos (1977), O Monstro do Pântano (1982), A Maldição dos Mortos-Vivos (1988), Shocker (1989), Amaldiçoados (2005) e My Soul to Take (2010), entre tantas outras obras entre os anos de 1972 a 2011. Craven faleceu em 30 de agosto de 2015, na cidade de Los Angeles, em decorrência de um câncer no cérebro.


O início do projeto


Desde 1982, Craven vinha trabalhando em um roteiro original de terror, no qual uma figura maligna matava pessoas dentro de seus próprios pesadelos. Sendo um projeto bem ousado e assustador, teve várias rejeições de diversos estúdios. O assassino de seu roteiro era, justamente, o que mais incomodava e afastava as grandes produtoras de aceitarem seus manuscritos.


Atuando em algumas produções menores nesse período e passando por um tempo de inatividade após, foi uma ligação de um produtor independente chamado Robert “Bob” Shaye que mudaria sua vida para sempre. O produtor havia criado recentemente uma produtora chamada New Line Cinema, que mostrou-se bastante interessada em seu roteiro.


Entre a primavera e o verão de 1983, a New Line bancou várias viagens de Craven para New York, com a finalidade de que ele e Bob fizessem adaptações no roteiro original que, segundo Bob, já era bastante interessante e promissor. Além disso, Craven já começava a formar sua equipe dos sonhos para atuar na produção do filme, entre os quais estavam Rachel Talalay, Gregg Fonseca, Anne Huntley, Lisa C. Cook, John Burrows, Doon Diers, Kathy Logan, Lisa Jensen, Jim Doyle, Robbie Knott, Lou, Annette Benson, Carlucci, Christina Rideout, Jacques Haitkin e Anthony Cecere.


Com a equipe formada, era hora de buscar pelo elenco ideal. O primeiro nome a ser buscado era do intérprete de Freddy Krueger que, por uma série de felizes encontros e acontecimentos, acabou ficando sob a responsabilidade do ator Robert Englund, conhecido à época por sua atuação como o alienígena Willie na minissérie V: A Batalha Final (1983). Assim que o ator leu o roteiro e Craven acompanhou a audição, ficou claro que a produção havia encontrado seu protagonista (ou vilão) perfeito.


Na sequência, Heather Langenkamp foi selecionada para interpretar Nancy Thompson, seguida por Johnny Depp (Glen Lantz), Amanda Wyss (Tina Gray), Jsu Garcia (Rod Lane), John Saxon (Tenente Donald Thompson) e Ronee Blakley (Marge Thompson) para os papéis principais. O elenco de apoio foi sendo escolhido aos poucos por meio de processos seletivos e audições.


Quando tudo parecia certo e equipe e elenco já estavam preparados para iniciar as gravações, uma bomba explodiu. A empresa Smart Egg, que havia injetado grande montante na produção, resolveu retirar o investimento e o aplicar em outro local, o que fez com que a produção perdesse metade de seu capital.


Burrows chegou a optar por não receber salários e pagar as pessoas que trabalhavam na produção com dinheiro próprio. E Shaye teve de, praticamente, “vender sua alma ao diabo” para conseguir capital externo e não deixar o projeto morrer. Em um acordo com o dono da Media Home Entertainment, Joseph Wolf, ficou acertado que Wolf daria o valor necessário, contudo, caso algumas exigências dele não fossem cumpridas, teria o direito de acabar com a produção do filme.


Era um acordo terrível, mas a única chance de manter o projeto vivo. Àquela altura, Craven já estava dando a guerra como perdida. Mesmo com a maior parte da equipe não gostando da ideia, era a única chance naquele momento. E, como o elenco também estava fechado em salvar o filme, acabou dando tudo certo. E o resto, nós já sabemos… ou será que não?


Produção, filmagens e curiosidades


A parte mais desafiadora da produção foi em relação ao protagonista. Ao mesmo tempo que Craven pretendia fazer feições mais humanas através de maquiagem, o uso de máscara era um artifício muito utilizado em outros filmes de terror. Contudo, a máscara teria de ser bem sutil de modo a permitir movimentos faciais realistas ao ator.


David B. Miller ficou com a responsabilidade de criar a aparência do vilão e fez uma profunda pesquisa sobre queimaduras reais. A intenção seria criar algo que simulasse uma queimadura e, após algumas tentativas, a ideia veio enquanto Miller estava comendo uma pizza com calabresa.


Ele viu a combinação do queijo derretido com a calabresa e imaginou o queijo sendo a pele derretida por cima dos músculos (a calabresa). Com isso, fez alguns apliques de camadas e o resultado foi melhor que o esperado (espero que você não deixe de comer a pizza depois de saber disso).


Outro ponto foi a definição da indumentária do personagem. Inicialmente, as cores pensadas foram o vermelho e o amarelo. Após folhearem um artigo em uma edição da revista Scientific American, observaram a combinação entre verde e vermelho e, com isso, tinham as cores para o suéter.


A permanência do chapéu Fedora foi outra briga ferrenha. Enquanto Miller insistia em tirar o chapéu da caracterização por conta da maquiagem, tanto Craven quanto Englund bateram o pé para mantê-lo presente… e conseguiram.


Para completar o visual, faltava um acessório importantíssimo: as famosas garras. Elas precisariam parecer rústicas, com as lâminas bem afiadas, brilhantes e sujas ao mesmo tempo. As mesmas foram esboçadas por Carlucci em algumas versões que, após aprovação de Craven, Englund e da equipe de produção, chegaram a um consenso sobre o visual.


Dois jogos diferentes foram feitos, sendo um par com cano de cobre e couro e lâminas de aço inoxidável, valendo-se de lâminas de facas de cortar tomates modelo XXP210 da W.R. Case & Sons Solutions (não está mais disponível no mercado) e outro par de plástico, não afiadas, para as cenas nas quais Freddy precisava agarrar alguém.


Parte das cenas do longa foi feita na prisão de Lincoln Heights (atualmente desativada), em La Habra, na Califórnia. Wyss relata que o ambiente era assustador, sombrio, aterrorizante e cheio de energia negativa. Isso acabou ajudando produção e elenco a entrarem no clima das cenas.


Na icônica cena das crianças pulando corda, percebemos um efeito de difusão e slow motion e, logo após, uma imagem normal com velocidade padrão, tudo feito sem cortes na tomada. Esse efeito somente foi possível à época graças à engenhosidade de Haitkin e da equipe técnica. Com seis operadores de câmeras e um sofisticado mecanismo usando pedaços de vidro com material pulverizado de forma graduada, alternava entre a visão embaçada das crianças pulando corda em câmera lenta e dos adolescentes na escola conversando e caminhando normalmente.


Em outra cena, vemos Nancy dormindo quando o rosto e as garras de Freddy surgem a partir da parede. Nessa cena, a criatividade foi de Burrows, que decidiu criar uma espécie de parede falsa com tecido elastano pintado de cinza e posicionando a iluminação correta no tecido. Com a parede revestida, ele e Robert empurravam o rosto e as garras contra o tecido para criar o efeito e, ao Nancy acordar, a cena foi cortada. Mais uma vez, a simplicidade criando complexidade.


Outra cena chocante foi a morte de Tina (essa me assustou bem). Não havia cordas prendendo a atriz Amanda, mas sim o cenário como um todo sendo movimentado, o que fazia com que ela derrapasse pelas paredes. Para dificultar um pouco as coisas (e dar maior realismo), a atriz sofria na vida real de vertigem, o que fazia com que ela realmente perdesse a noção de orientação e ficasse desesperada na cena. Aliás, ela quase sempre precisava de ajuda para voltar ao estado normal após as cenas… tenso!


A cena em que Nancy arranca o telefone da parede, enrola o fio e o telefone continua tocando é sensacional! Após, o telefone continua tocando e Nancy decide atender a ligação. A voz sobrenatural de Freddy surge na linha dizendo “Eu sou seu namorado agora, Nancy” e, então, uma língua sai do telefone e entra na boca da jovem… quem não tomou sustos nessa cena não estava realmente concentrado.


O interessante é que o mecanismo utilizado para fazer o efeito custou a bagatela de U$ 5! Um telefone de princesa e uma língua de borracha colocada em uma alavanca que, quando acionada, fazia a língua sair para fora do telefone. Um mecanismo duplo movimentava a língua e a fazia entrar na boca de Heather… e o resto coube à brilhante interpretação da atriz que, até hoje, ainda tem pesadelos com essa cena.


A trilha sonora é, sem a menor sombra de dúvidas, uma das melhores coisas do filme… assustadora, envolvente e surreal! Coube a Charles Bernstein o encargo de produzir toda a trilha para o filme. Com as severas restrições orçamentárias, o compositor e produtor musical não pôde utilizar seus arranjos com orquestra completa e precisou apelar para os sintetizadores. De qualquer forma, o resultado foi simplesmente maravilhoso!


O protagonista


Agora, falar do filme sem dar destaque ao protagonista (nesse caso, vilão) é inadmissível da nossa parte. Afinal, quem não teve pesadelos com esse sujeito misterioso e apavorante? Mas, por outro lado, em muitas cenas percebemos um olhar quase que desesperado dele, apresentando-nos um personagem bastante complexo.


Acusado por ter praticado crimes de abuso sexual contra crianças, Freddy é preso e, posteriormente, solto. Contudo, a população decide fazer a própria justiça e, em um impiedoso ataque, encurrala-o em uma fábrica e o queima vivo. Parece que tudo foi resolvido… só que não.


Mais tarde, ele decide reaparecer e, dessa vez, em um mundo no qual não pode ser capturado facilmente: o mundo dos sonhos. Ele conhece exatamente quais os medos e pavores de suas vítimas e não mede esforços para utilizá-los contra suas presas.


Além de ser um filme assustador e apavorante, ainda traz uma tensão sexual bastante presente. Na cena do telefone, percebe-se que há um desejo carnal entre ele e Nancy, motivado por algo que aconteceu na infância de ambos. Os traumas do passado acabam desencadeando uma relação interessante entre os dois, visto que Freddy parece não querer matar Nancy, mas sim trazê-la para seu lado.


E há outro fator interessante a se considerar na trama. É como se Freddy culpasse as crianças e jovens por tudo o que aconteceu a ele… ou, talvez, porque ele não pôde ter uma infância e adolescência normal e, com isso, projetasse suas frustrações em suas vítimas. É um pensamento bastante assustador e, ao mesmo tempo, bem realista.


Pensando friamente, talvez Freddy seja a personificação de nossos desejos mais cruéis de vingança contra aqueles que, de alguma forma, nos fazem mal. Um mecanismo de defesa contra as atrocidades cometidas no mundo real e que são punidas no mundo imaginário. Analisar Freddy psicologicamente é uma viagem bastante intensa.


As continuações


A saga ganhou outros seis filmes, além do crossover Freddy x Jason (2003) e o reboot A Hora do Pesadelo: O Novo Pesadelo de Wes Craven (2010). Hora de relembrar os filmes da franquia e uma cena de cada filme para fazer aquele flashback gostoso:


  • A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy (1985): a cena de Freddy tocando o terror na festa da piscina é sensacional. Teve de tudo… choque na cerca, afogamento, esquartejamento e outras coisas.

  • A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos (1987): a cena de Freddy engolindo Kristen, como se fosse uma cobra é assustadora e fantástica ao mesmo tempo.

  • A Hora do Pesadelo 4: O Mestre dos Sonhos (1988): jamais podemos esquecer a cena do pesadelo dentro do cinema… teve até pizza humana rolando.

  • A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy (1989): a cena do pesadelo de Yvonne na piscina é tensa e apavorante.

  • A Hora do Pesadelo 6: Pesadelo Final – A Morte de Freddy (1991): o barulho de Freddy arranhando a lousa e fazendo mais uma vítima causa frio na espinha até hoje.

  • O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (1994): o assassinato de Julie foi uma das cenas mais impactantes desse filme.

  • Freddy X Jason (2003): a cena final de Jason segurando a cabeça de Freddy é hilária.

  • A Hora do Pesadelo (2010): as cenas iniciais do filme são ótimas e bem tensas.


O veredito


Sem medo de errar, A Hora do Pesadelo foi um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. Com todos os problemas que Wes enfrentou até conseguir alguém que acreditasse em seu projeto, a quase morte do filme por falta de grana e todas as limitações de orçamento durante as filmagens, conseguiu criar uma obra-prima.


Com custo total de U$ 1,95 milhão e arrecadação de mais de U$ 25 milhões, foi um marco nos anos 80 e o início de uma das melhores franquias de terror da história. E muito disso deve-se à criatividade, profissionalismo e empenho de seu elenco e equipe envolvida.


Além disso, nada teria acontecido sem um personagem que marcasse presença de forma intensa, visceral e épica no filme. E Freddy Krueger, interpretado mitologicamente por Robert Englund, é esse personagem que todos odiamos e amamos ao mesmo tempo.


Ah: não podemos esquecer de fazer uma menção honrosa ao épico dublador brasileiro Isaac Bardavid (Esqueleto, Wolverine, Freddy, Obi-Wan Kenobi, Odin e Dr. Robotnik, entre tantos outros). A voz que ele colocou para o personagem é simplesmente perfeita… dá frio na espinha a cada instante!


Em resumo, A Hora do Pesadelo é o tipo de filme que você precisa assistir… e vale curtir também os outros filmes da franquia, embora alguns tenham decepcionado crítica e público. Ah, e não ouse dormir depois disso, ou poderá se juntar ao mundo sombrio de nosso querido anfitrião!


Referências

HUTSON, T. A hora do pesadelo: Never sleep again. Rio de Janeiro: DarkSide Editora, 2017.