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  • Ana Franskowiak

Que Horas Ela Volta?

Saudações Cósmicas!


Sabiam que dia cinco de novembro comemora-se o Dia do Cinema Brasileiro? Mas que também poderia ser comemorado em dezenove de junho? A controvérsia se dá em torno de duas exibições emblemáticas transcorridas em território nacional: uma delas na data de dezenove de junho de 1898, que consistia de imagens da Baía de Guanabara registradas por Afonso Segreto, e a outra, em cinco de novembro de 1896 trata-se da primeira exibição cinematográfica pública promovida no país. Com ou sem uma, ou mais de uma data, como é o caso, o que importa é que sempre é bom conhecer novas obras, e a que eu trago hoje dialoga comigo de muitas formas. Acredito que dialogará com muitos e muitas de vocês também.



Que Horas Ela Volta? é um filme de 2015 escrito e dirigido por Ana Muylaert, sendo que foi originalmente intitulado A Porta da Cozinha e reescrito quatro vezes junto de Regina Casé, que interpreta Val, uma diarista pernambucana e protagonista dessa obra cujo título definitivo é habilmente inserido em um diálogo aparentemente simples, entretanto profundo e marcante. Precisamente, em uma fala de Fabinho, então criança, que pergunta por Karine, sua mãe, vivida por Karine Teles.


Após treze anos de serviço na casa da família Bragança, em São Paulo, Val se encontra economicamente estável e decide se reaproximar da filha Jéssica, vivida por Camila Márdila, que vivia com o avô e cuja ida para São Paulo coincide com outro propósito seu: prestar o vestibular para o qual Fabinho também se inscreveu. E o que acontece daí em diante ultrapassa a ideia superficial de conflito de gerações, causando extremo desconforto e, simultaneamente, extrema identificação.



Jéssica fica hospedada na casa onde Val trabalha, no espaço claustrofóbico que lhe compete, e suas principais divergências com relação ao jeito de ser de sua mãe se exteriorizam no tratamento com os membros da família Bragança, uma típica família de comercial de margarina, conforme convencionou-se chamar. Trata-se de um ambiente de subtextos construído por comportamentos ilógicos e excludentes que, de tanto serem acatados religiosamente por pessoas como Val, assumiram ares de normalidade. Por sorte, iconoclastas naturais como Jéssica fazem-no ruir, ou, pelo menos, trincar, antes tarde do que nunca. Aviso: não desconsidero aqui o estado de necessidade que forçou Val a aceitar o inaceitável por anos. Entretanto, é difícil não exultar diante de uma personagem como Jéssica. Preciso dizer que é minha preferida?


Tem que estudar muito… materializa-se na forma de conselho o manifesto desdém de Bárbara perante o sonho de Jéssica em se tornar arquiteta. A oferta de um sorvete por José Carlos, pai de Fabinho, interpretado por Lourenço Mutarelli, escancara aquele odioso protocolo de recusar algo mesmo querendo, pois agir em contrário, aos olhos de pessoas que pensam como Val, constitui uma afronta. É ele também quem protagoniza uma realisticamente repulsiva cena de assédio impune.



A cena da festa, na qual o presente de Val para Bárbara é nitidamente preterido mostra-se revoltante e pungente tanto pela inocência de Val quanto pelo preconceito de Bárbara. Arrisco dizer que somente quem já vivenciou algo semelhante a entenderá em sua plenitude, conforme o audiovisual traduz com maestria aquele gosto amargo que sobe à boca quando nos reconhecemos enquanto o token, ou, em bom português, o bichinho de estimação de alguém. Afinal, Val é quase da família. Não é?


Quanto à relação entre Jéssica e Fabinho, ela forçosa e meio enviesadamente me remete a Krystal Weedon e Stuart Wall, o Bola, personagens de Morte Súbita, livro de J. K. Rowling. Não em personalidade, pois Jéssica destoa totalmente da problemática Krystal, mas na maneira como Tessa, mãe de Bola e conselheira escolar extremamente paternalista em relação a pessoas desfavorecidas, reagirá ao descobrir que seu filho está se relacionando com ela. Afinal, há limites para tudo, exceto para a minha felicidade com a cena da aprovação de Jéssica e o reconhecimento, ainda que contrariado, de Bárbara em relação ao seu mérito. O que ela sofrerá na universidade graças a Bárbaras e Fabinhos, não tão gente boa quanto esse que se despede para um intercâmbio, é algo que fica relegado ao campo dos meus pensamentos, nas páginas um roteiro ou livro chamado Que Ano Ela Se Forma? Quem sabe uma hora ele não se concretiza…


Tão merecedor dos múltiplos prêmios aos quais foi indicado quanto Jéssica o foi de sua vaga no curso de arquitetura, Que Horas Ela Volta? morde e assopra. Certas cenas que, para algumas pessoas, podem parecer enternecedoras, como Fabinho vindo procurar a companhia de Val, que, inclusive, rendeu uma bela foto de pôster, vistas dentro do contexto, revelam-se, na verdade, excruciantemente dolorosas: era Jéssica quem deveria estar em seus braços e não tão distante física e culturalmente a ponto de sequer chamá-la de mãe. Felizmente, ainda há esperança para elas, para o próprio Fabinho e para Jorge. Quem é Jorge? Assistam e descubram…


Que muitos outros filmes brasileiros de excelência e muitas Jéssicas reais e ficcionais surjam pelos anos que se seguem e do widzenia!