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  • Gisele Alvares Gonçalves

Quinzena Farroupilha – O Tempo e o Vento

E aí, peonada… Como estão por aí? Para quem não sabe, neste mês, no Rio Grande do Sul, nós comemoramos o dia 20 de setembro como sendo uma data da celebração da nossa cultura, nossas origens e tradições. Dia 19 acontecia o desfile temático dos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha), e no dia 20 de setembro pela manhã acontecia outros desfiles. Durante basicamente todo o mês, na praça da Harmonia em Porto Alegre, os CTGs montavam piquetes e acontecia festa dia e noite, rodeio e venda de artigos tradicionais, e era um passeio quase que obrigatório para todas as famílias. Gente de toda a idade se reunia para ouvir música e contemplar as danças, e depois, quando batia aquela fominha, comer um churrasco era uma opção bastante apreciada. Neste ano o vinte de setembro, e consequentemente a quinzena farroupilha, ficou apagada por causa da pandemia, e nós, que estávamos acostumados a esta festa, estamos sentindo muita falta disso.


Eu já fiz parte de CTG e já participei dos desfiles temáticos, sempre tive amor pela tradição e pela nossa história, e como gaúcha que sou quis comemorar esta data tão importante de uma forma diferente este ano, mas ainda assim honrando a nossa história. Para quem não é gaúcho, convido vocês a conhecerem também o filme O Tempo e o Vento, adaptação fidelíssima do primeiro livro da saga homônima de Erico Veríssimo, e assim conhecer um pouco da cultura rio-grandense… Garanto que vai ser um momento enriquecedor para qualquer brasileiro, afinal todos nós fazemos parte dessa grande pátria mãe que é o nosso Brasil.


Para quem não conhece a história do filme (que abarca apenas o primeiro volume da série de livros), vou fazer um breve resumo: a trama se passa entre várias gerações da família Terra, começando com Pedro Missioneiro, nascido em São Miguel das Missões, e Ana Terra, filha de um estancieiro pobre (e bota pobre nisso). Depois a história prossegue com a neta dos dois, chamada Bibiana, quando ela se apaixona por um certo capitão Rodrigo… E intermitente a tudo isso, temos a Bibiana velha no sobrado, contando sua história para o fantasma de seu amado. Esta é uma história de amores, é uma história de perdas e de guerras, uma história de mulheres fortes… Mas, acima de tudo, é a história do Rio Grande do Sul, do início da sua existência.


Gente, é imperdível esse filme! Ah, não acredita em mim, é isso? Quer mais algumas razões para assistir à obra? Vou dar algumas razões: Fernanda Montenegro como Bibiana velha, Thiago Lacerda como capitão Rodrigo Cambará, Marjorie Estiano como Bibiana jovem, Cléo Pires como Ana Terra. Só nome grande, né non? Então corre lá para assistir ao longa, pois tenho certeza de que vai se surpreender positivamente com ela! Agora me despeço de quem não viu o filme, pois estamos prestes a entrar na zona de spoilers. Um beijo, e até a próxima!


Zona de Spoilers

Para quem leu o livro O Continente I (primeiro volume de O Tempo e o Vento), esse filme não poderia ter alcançado maior perfeição do que isso. Tudo foi retratado exatamente da forma como eu imaginei, e a caracterização dos personagens ficou impecável com a descrição do livro! A única coisa que realmente foge um pouco da narrativa do Érico Veríssimo é o fato de que ele nunca colocou o fantasma do Rodrigo a conversar com a Bibiana, porém este foi um recurso que eu mais que apoiei no filme… Afinal, ele deu a dramaticidade necessária para esta outra mídia, além de ter mantido a ordem da narração intacta (com a parte do sobrado sendo intercalada com o resto da linha temporal da história).


O que mais me impressionou no longa, é claro, foi a atuação do Thiago Lacerda como Rodrigo. Que homem genial, e que empenho profissional esse homem teve ao entender os trejeitos gaúchos! O ar expansivo, o sorriso de homem boêmio, o carisma e a segurança em si mesmo que conquistaram Bibiana… E que conquista a todos nós. Fala sério, mulherada, é ou não é um crush fictício? Claro, a Fernanda Montenegro também dá um show de atuação, como sempre… Que mulher maravilhosa! Apesar de notarmos um sotaque carioca carregado no “r”, o que chega a incomodar um pouco sim, tratando-se de uma obra que retrata o início do Rio Grande do Sul.


Tirando a questão da atuação, a trilha sonora também é divina, perfeita para a obra! Ela é grandiosa e épica, e ainda assim consegue resgatar o clima rio-grandense. Quanto à direção, bah… Nem se fala! Afinal, é o Jayme Monjardim, não é mesmo? O mesmo cara que dirigiu O Vendedor de Sonhos, Chiquinha Gonzaga e A Casa das Sete Mulheres (minissérie também sobre a história gaúcha, que um dia terei que resenhar para vocês!). Literalmente, tudo o que eu gosto de produções brasileiras, o cara é que foi o diretor.


O Jaime conseguiu resgatar a essência da obra de Érico Veríssimo… Não apenas no quesito diálogos, cenários e personagens, mas também nas metáforas que o escritor gaúcho impregna em suas palavras. O Tempo e o Vento, vocês já pararam para pensar que o tempo é a mulher, e o vento é o homem? O tempo é a espera, é a fixação na terra (ou Terra, como no sobrenome de suas heroínas), é a roca a ser fiada… Já o vento é a guerra, é a mudança, é destruição. O vento vai embora quando quer, e volta quando menos imaginamos, como o capitão Rodrigo Cambará. Ainda assim, tempo e vento se encontram, pois noite de vento é noite dos mortos, e os mortos representam as gerações, ou seja, a passagem do tempo.


Tantas simbologias a serem apreciadas, e todas elas transpostas do livro para o filme! Mas, além de metáforas, também temos muito da cultura gaúcha, principalmente no baile em que o Bento dá um tapa em Rodrigo. Cana Verde e Balaio… Duas músicas que remetem à minha infância, ao meu tempo de CTG. Duas músicas que remetem à infância do próprio Rio Grande do Sul, dando verdade à cena e possibilitando que nós, expectadores, consigamos ter uma imersão incrível ao tempo que é retratado. Já pararam pra pensar no poder da música de nos transportar a outros tempos? A outros tempos e outros ventos, ousaria dizer… Ventos que espalham a cultura por aí, e fazem com que todo o Brasil possa conhecer a essência do meu estado.



Ana Terra, Bibiana e Rodrigo Cambará podem ser personagens fictícios, em uma cidade também fictícia, porém a história do Rio Grande do sul por trás deles é real. O massacre nas missões pela força conjunta de Espanha e Portugal, a Guerra dos Farrapos, a Revolução Federalista… Tudo aparece pontilhado no filme, sem dar muitos detalhes sobre os comos e os porquês, porém ajudando a marcar a cronologia dos eventos históricos, e incentivando o expectador a querer saber mais sobre eles. Claro, eu, como historiadora, sei um bocadinho sobre cada uma dessas guerras, porém não quero me alongar aqui… Só quero ajudar vocês a conhecerem um pouco da história gaúcha, já que é isto o que comemoramos nessa quinzena:


Guerra Guaranítica (1753 - 1756) – é mostrada quando a missão em que Pedro vivia é invadida, obrigando-o a fugir para o Continente de São Pedro (sim, era assim que o Rio Grande do Sul era chamado na época). Tudo aconteceu porque, à época, as missões eram de domínio espanhol, porém, com o Tratado de Madri, elas passariam ao domínio português, que entregaria à Espanha a Colônia do Sacramento em troca. Aí a pessoa pensa: “ah, beleza! Só ia trocar o rei a quem os índios deveriam obediência”. Ledo engano. Com a troca, todos os índios deveriam ser encaminhados para viver na Colônia do Sacramento e continuar a serem leais ao rei espanhol… Só que eles não gostaram muito dessa ideia de terem que abandonar a sua casa, e lutaram por ela. Apesar da justiça da causa missioneira, no entanto, os índios acabaram por perder a guerra, e foram massacrados pelos europeus. Os sobreviventes foram encaminhados para a Aldeia dos Anjos, onde hoje é Gravataí.

Guerra dos Farrapos (1835 - 1845) – é mostrada no tempo da Bibiana jovem, quando o capitão Rodrigo Cambará sai de casa sem se despedir de ninguém para se alistar às tropas farroupilhas. Depois de muita peleia, e aproveitando-se do estado caótico da guerra, Rodrigo volta para Santa Fé para tirar o domínio dos Amaral da cidade, porém acaba sendo assassinado por uma bala covarde de seu inimigo, Bento Amaral. Esta guerra foi conduzida pelos estancieiros gaúchos, que faziam várias reivindicações ao Império, como a diminuição do imposto sobre o charque, que acabava tornando o nosso produto muito mais caro do que aquele vindo do Uruguai. Foi apenas depois de um ano de guerra, e sem o consentimento do líder farrapo, Bento Gonçalves, que Neto proclama a República Rio-Grandense, separando o Rio Grande do Sul do resto do Brasil. Com o tratado de paz de Ponche Verde, no entanto, o estado é reintegrado ao Império, que concede algumas das reivindicações iniciais dos gaúchos em troca.

Revolução Federalista (1893 - 1895) – É a guerra que acontece quando o sobrado está cercado, quando Bibiana já está velha. Esta revolução aconteceu um pouco depois da república ter sido instaurada no Brasil, e exatamente por causa desse fato… Afinal, todos concordavam que o país precisava mudar, mas nem todo mundo concordava sobre o rumo que a política brasileira deveria seguir. Uns queriam o parlamentarismo, ao modelo inglês, e liderados por Gumercindo Saraiva eles eram os Maragatos. Os outros, aqueles que desejavam pela república, eram chamados de Pica-Paus, ou Ximangos. Essa guerra foi chamada também de Revolta da Degola, pois esta era uma prática muito comum neste período, tendo tornado a Revolução Federalista muito mais marcante no imaginário coletivo quanto à sua violência. Em O Tempo e o Vento, os Amaral eram Maragatos, e os Terra-Cambarás eram Ximangos.


E aí, gostaram da resenha? O que acharam de O Tempo e o Vento? Ficaram curiosos para ler os livros? Comentem aí abaixo também se já conheciam um pouco sobre essas guerras que foram mencionadas durante a resenha, ou se esse conhecimento foi uma novidade para vocês. Por hora, no entanto, devo me despedir de vocês… Portanto, deixo um beijo e um queijo para cada um, e uma esperança de que possamos nos reencontrar em outra resenha. Até a próxima!