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  • D. C. Blackwell

Rent A Pal - Amigo De Aluguel

Olá! Meu nome é D. C. Blackwell e eu estou aqui para ser seu amigo.


E hoje, vamos falar dessa obra prima dos thrillers psicológicos que é Rent-A-Pal não achamos o nome do filme em português, apenas com legenda).


David é um homem solitário e carente de 40 anos que vive com a mãe, que tem demência. Como cuidador dela, ele não tem tempo nem meios de socializar, e por isso, além de outros traumas em seu passado, ele nunca namorou. Isso o leva a uma busca incansável por um relacionamento através de um sistema de encontros por vídeo – uma espécie de Tinder por VHS dos anos 80. À beira da desistência, ele encontra outra fita nessa mesma locadora: Rent A Pal – ou Amigo de Aluguel, em tradução livre. As coisas começam a sair do controle quando Andy, seu amigo de aluguel, começa a demonstrar ciúmes de David quando ele consegue um par e volta de um encontro bem-sucedido.



Desde os primeiros instantes, o filme é engenhoso. Através das gravações das garotas com as quais David tenta dar match, vamos descobrindo mais sobre ele. Em conjunto disso, as músicas que tocam e os programas que passam na televisão enquanto ele está cuidando da mãe passam a clara mensagem de que ele se sente preso e que precisa sair e viver, aproveitar a vida, mesmo que ele não queira admitir. E isso é completamente normal em casos assim: Não nos permitimos, muitas vezes, pensar em nosso próprio bem-estar quando este depende da morte de uma pessoa amada. Seria impensável para David querer liberdade, visto que se sabe que a única maneira de se obter isso seria com o fim da sua mãe. Passamos também pelas fotos da família, onde nos conectamos ainda mais com Lucille ao contemplarmos fotos da sua infância e juventude.


Notamos também como as pessoas se fecham para David da mesma forma como ele se fecha para eles, numa espécie de ciclo sem fim onde não importa quem começou. Quieto e tímido, ele é sempre interrompido e suas emoções nunca são levadas em conta. Ao expor-se e abrir seu coração honestamente diante de uma câmera para gravar um vídeo atualizado para o programa de namoro, por mais amável e querido que ele fosse, foi tratado como apenas mais um na fila do pão – o que era verdade. Em certo ponto, com Andy, David revela que não conversa com ninguém desde a infância. Já imaginou isso? Ser tão absolutamente sozinho a ponto de precisar abrir o coração com uma gravação em uma fita? Pois é, eu não julgo o David.

Sobre a demência de Lucille, pode se dizer que é uma das doenças mais terríveis que existem. Perder a si mesmo gradativamente até que só sobre confusão e dor é algo que destrói o portador e todos em volta. E assim como Lucille, David se deixa perder de forma similar ao ceder ao vício que sacia a carência de David, o Amigo de Aluguel. Andy passa a se tornar a pessoa mais importante na vida de David, até porque, vamos ser sinceros, não tinha muita gente na fila. Mas esse fato, somado ao efeito causado pela previsão dos diálogos que o Amigo de Aluguel faz em sua gravação, causa danos consideráveis à mente de David, que passa a não somente acreditar na existência de Andy e a amizade entre os dois, como também abrir mão de companhias reais e saudáveis de pessoas que o querem bem.



O Efeito Forer, causado pelas asserções de Andy, tem base na observação de que tomamos como certas características que são amplamente genéricas, mas que julgamos especiais e representativas de nossas individualidades. Ou para simplificar, o velho caso do horóscopo que “acerta” que hoje você vai precisar ter cuidado nas suas relações interpessoais – sim, é óbvio, isso é algo que todo mundo precisa ter o tempo todo! Com base nisso, a proposta da fita é parecida: ao deixar que o espectador preencha as lacunas da conversa e permita que a gravação responda com frases genéricas, acaba-se criando a sensação de que o espectador é, de alguma forma, especial para a gravação. O problema disso é que pessoas muito carentes e com dificuldades para sociabilizar acabam se apegando demais a esse tipo de conforto, recusando-se a querer conviver com outras pessoas, pois, afinal, é muito melhor quando já sabemos o que a outra pessoa vai responder, e sabemos também que “Andy quer ser seu amigo, e é pra isso que amigos servem”. Encarar a realidade pode tornar-se insustentável, e abdicar de ter aquele pequeno momento de prazer volátil da fita pode acabar sendo comparado a pular de um prédio em chamas. Ainda mais quando o indivíduo está completamente apegado e convencido a essa relação de mentira.


A verdade é que essas ferramentas existem em ainda maior quantidade hoje. Bots que respondem de acordo com o seu perfil de personalidade, as famosas waifus (bonecas de travesseiro que matam a carência dos otakus) e até mesmo pornografia de realidade virtual causam esse mesmo efeito. Temos que tomar cada vez mais cuidado para não acabarmos esquecendo das pessoas à nossa volta ou perdendo nossas próprias personalidades em troca de prazeres unilaterais, especialmente em tempos de pandemia e isolamento social.


E você, está precisando de um amigo?