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  • Ana Franskowiak

Slashers, Trashers and Hits

Saudações Cósmicas!

Decidi começar essa conversa perguntando e respondendo. Você se recorda da primeira vez em que foi ao cinema e de qual filme assistiu? Seguramente. Não apenas do primeiro, como do segundo: Jogos Mortais I e Exorcista - O Início.

E se as minhas respostas lhe causaram quaisquer estranhamentos, desconfortos ou assemelhados, você está lendo o texto certo.

O Terror inspira manifestações artísticas em todas as épocas e além de ter se consolidado enquanto gênero próprio, flerta com todos os demais (no contexto da nossa conversa, cinematográficos). Mesmo assim, ainda é tabu, embora hoje bem menos que à época em que fui ao cinema pela primeira vez, muito devido ao seu caráter paradoxal: ao mesmo tempo em que ninguém (acredito) gostaria de se defrontar com as situações e indivíduos que povoam tais medonhos universos, a experiência do medo contido incita, atrai e, pasmem, revela-se uma experiência perfeitamente saudável tanto do ponto de vista artístico, quanto psíquico. Obras clássicas como Nosferatu, O Bebê de Rosemary, Os Outros, Drácula, Frankenstein, corroboram essa ideia. Entretanto…

Como todo gênero consolidado, o Terror se ramificou. Dentre tais ramificações, algumas acabaram desfrutando de algum prestígio, a exemplo do Terror Psicológico (terminologia controversa, digna de um texto só sobre ela) enquanto outras permanecem estigmatizadas, às vezes mesmo entre fãs do gênero. Leia-se, o Slasher e o Trash.

Muito antes de pisar numa sala de cinema pela primeira vez, eu já me deleitava com as “pérolas” apresentadas pelo icônico Zé do Caixão no saudoso Cine Trash, e com tantas outras exibidas tarde da noite ou no meio da tarde, e que requeriam certos riruais para que eu pudesse apreciá-las ainda que, raramente sem interrupções. Por exemplo, envolver a televisão em tecidos para que a luz dela não fosse captada por mais ninguém que acordasse à noite para, quem sabe, ir ao banheiro e sentar perto o bastante da tela para que eu pudesse trocar de canal imediatamente caso alguém adentrasse a sala de estar. O que eu estava prestes a testemunhar recompensava cada adversidade.

Na típica rebeldia miltoniana, eu conheci Christopher Lee, Klaus Kinski, Robert Englund, Doug Bradley (que participou de Swansong for a Raven, do Cradle of Filth, uma excelente banda para quem aprecia as vertentes mais extremas do Metal), e muito das minhas futuras influências artísticas foi se enraizando nesses preciosos momentos. Lembro-me como se visse pela primeira, da insuspeita senhora que, numa releitura de João e Maria, planeja cozinhar um menino que escapa após entretê-la com histórias de gárgulas e múmias (cuja fórmula para acordá-la eu sabia de cor até pouco tempo…), dos objetos caídos do espaço e manuseados por pessoas leigas, das epidemias transmitidas por espécies exóticas, de aranhas a mamíferos oriundos de ilhas no sudeste asiático, e de indivíduos e objetos que um dia se revoltam contra a espécie humana por pura maldade. Entretanto, parafraseando certo clássico proverbial contemporâneo: será verdade?

Talvez o que as pessoas fomentadoras do preconceito contra o Trash e Slasher ainda não tenham reparado é que encarar com naturalidade as possibilidades mais insólitas e nuances mais doentias da personalidade humana, não torna ninguém doente. Pelo contrário: expõe e previne situações de terror real à espreita na rua, na aula, no trabalho e, às vezes, até em casa. Lembremos que O Massacre da Serra Elétrica, entre tantos outros, teve por inspiração notórios casos reais, e que não há problema algum em alguém usar uma camiseta do Pinhead (aliás, um dos meus personagens preferidos de todos os tempos), por exemplo, desde que a admiração se concentre na obra e não em certos atos que ela eventualmente ilustra. Parece óbvio, porém, se o fosse, o preconceito já teria sido superado.

O inevitável avanço tecnológico assim como a evolução individual traz consigo mudanças de percepção. É bem provável que, hoje, ao rever A Noite dos Mortos Vivos, O Portal, Mestre dos Brinquedos, eu ria de cenas que me causavam arrepios na infância. O que, por sua vez, não muda? Valor sentimental e tudo que essas obras me ensinaram, a despeito do orçamento, atuações e afins. O que deveria mudar? Talvez mudar não seja a palavra adequada, e sim ampliar. Ampliar a ideia rasa de que uma criatura com a face coberta de pregos, um engenheiro civil em estado terminal, um cara com uma máscara de hóquei e outro que invade nossos sonhos não existem para outro propósito que não espirrar sangue do início ao fim, e talvez passar a um subtexto que aponte para a dor que causamos em outrem, o pouco valor que damos a bens inestimáveis, como a vida, os monstros criados por nós inadvertidamente e sobre como varrer certos assuntos para baixo do tapete pode se mostrar muito mais danoso que simplesmente abordá-los de modo franco. Ou, podemos tão somente tomar alguns sustos e rir alto enquanto um biscoito de gengibre humanoide ganha vida e sai matando geral entre efeitos discutíveis e litros de xarope de groselha. A escolha é sua. Ambas opções são válidas

Voltando ao princípio, então, qual foi o primeiro filme Slasher ou Trash que você assistiu e quando (se) passou a pensar nele como algo a mais? Um forte abraço (especialmente para quem reconheceu a referência no título) e do widzenia!