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  • D. C. Blackwell

Sobre a saga Halloween

Alguns clássicos do cinema demoraram muitos anos (às vezes até décadas) para estrearem na nossa TV. Filmes hoje conhecidos e de fácil acesso, mas que levaram um bom tempo até serem exibidos pelos canais abertos no Brasil.


Halloween (1978) é um desses casos. Embora não se enquadre na categoria "clássico de Hollywood”, tornou-se um clássico do terror, gênero que teve seu ápice nos anos 1980, mas que só passou a ser levado mais a sério, digamos, a partir dos anos 2000. Além disso, Halloween é reconhecido como um dos pilares do subgênero slasher.


O longa que projetou John Carpenter e o colocou no rol dos “cineastas de respeito” estreou de forma despretensiosa em 25 de outubro de 1978 nos cinemas americanos. Logo virou febre nos EUA e, na década seguinte, se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Mas o filme só chegou aos cinemas brasileiros em junho de 1980, com quase dois anos de atraso. Na época, a festa de Halloween era uma tradição estrangeira distante para os brasileiros. Não era costume comemorar Halloween no Brasil e a data não tinha relevância no comércio, como ocorre hoje.


A palavra Halloween nem era mencionada no título brasileiro do filme, batizado apenas de A Noite do Terror. Anos depois, quando o sucesso do filme já estava estabelecido, acrescentou-se Halloween ao título brasileiro, que ficou Halloween - A Noite do Terror. Mais tarde, passou a ser chamado apenas de Halloween, seu nome original. A própria crítica publicada na coluna As estreias da semana, do jornal O Globo, confirma: “O filme, como indica o título brasileiro, investe no gênero terror a partir de uma das festas mais tradicionais da sociedade americana, a Halloween, que acontece na última noite de outubro.” (O Globo, 8 de junho de 1980).



Vale lembrar que isso foi antes de Sexta-feira 13 (Friday the 13th, 1980) se tornar mania mundial. Esse gênero de filme era ainda considerado esdrúxulo e duvidoso. Nem o diretor e nem o elenco de A Noite do Terror eram conhecidos. A resenha do jornal O Globo, mencionada no parágrafo anterior, deixava isso claro: “Dirigido por John Carpenter e produzido por Debra Hill, A noite do terror tem no elenco Donald Pleasence, sempre um ator eficiente, Nancy Loomis, P. J. Soles, Charles Cyphers, Brian Andrews e John Graham. No papel de Laurie Strode, Jamie Lee Curtis, filha de Tony Curtis e Janet Leigh e que já participou da série de televisão As Panteras, substituindo Farrah Fawcett Majors.”


Essa parte final, sobre Jamie Lee Curtis ter substituído Farrah Fawcett em As Panteras, foi alguma espécie de delírio do redator ou viagem na maionese. De fato, Curtis participou de um episódio de As Panteras que foi ao ar uma semana antes da estreia de Halloween no cinema. Mas não teve nada a ver com substituir Farrah Fawcett. Foi apenas uma participação no seriado, como muitos atores e atrizes iniciantes da época faziam.


Halloween cresceu não só nos EUA como no restante do mundo e virou uma franquia com várias continuações. Ao longo das décadas, ganhou status de marco do gênero terror e foi imitado à exaustão. Depois da tímida estreia nos cinemas brasileiros, em 1980, o filme foi visto novamente no Brasil em meados daquela década, mas nas prateleiras das videolocadoras. A título de curiosidade, a continuação Halloween II - O Dia das Bruxas (Halloween II, 1981) não foi sequer exibida nos cinemas brasileiros.


Só em 1996 é que Halloween - A Noite do Terror (1978) foi ao ar na TV brasileira pela primeira vez. Àquela altura, como o filme e suas várias continuações já eram muito conhecidos, foi exibido como Halloween I. Talvez para não confundir o público, pois outros filmes da franquia Halloween já haviam sido exibidos na TV brasileira antes da exibição do primeiro filme.


A estreia foi no famigerado Cine Trash, da Bandeirantes, em 25 de novembro de 1996. Mesmo assim, apesar da fama do filme, ainda havia certa confusão quanto à sua qualidade ou relevância no cinema. Halloween não é um filme trash, mas entrou na lista do Cine Trash, que jogava tudo no mesmo caldeirão: de toscos filmes B a longas bem produzidos.



A jornalista Elaine Guerini abre a reportagem intitulada "Trash" levanta audiência na Band, publicada na Folha de S. Paulo de 25 de fevereiro de 1996, explicando:


Curiosamente, as sinopses publicadas nos jornais brasileiros na data da primeira exibição de Halloween na nossa TV foram bem discrepantes. Abaixo, a sinopse de O Globo:

25 de novembro de 1996


Um erro grosseiro já de cara: Donald Pleasence, que no filme faz o papel do Dr. Loomis, não era o foragido e sim o médico do sanatório. O foragido era o psicopata Michael Myers (Tony Moran).

Donald Pleasence


Enquanto O Globo referiu-se a John Carpenter como "mestre do filme B", Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, deu um tratamento mais elevado: "(...) A Bandeirantes terá Halloween, filme de terror com o talento e a inteligência de John Carpenter." (Canais abertos voltam a oferecer ótimas opções - Folha de S. Paulo, 25 de novembro de 1996). Elaine Guerini já registrara, meses antes, em sua reportagem na Folha sobre o Cine Trash, a opinião do próprio apresentador do programa:


A definição de José Mojica Marins explica por que nem todos os filmes exibidos no programa eram, de fato, “lixo”. Quem quiser mais detalhes e informações sobre o Cine Trash, é só ler o ótimo artigo de Italo Morelli Jr., Do fundo da estante: Cine Trash [Nostalgia], no site O que tem na nossa estante.


O mais novo filme da franquia, Halloween Kills: O Terror Continua (Halloween Kills, 2021), dirigido por David Gordon Green, estreou recentemente nos cinemas. Pelo visto, quando pensamos que a franquia Halloween já está morta, ela ressurge. Assim como seu psicotapa Michael Myers.