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  • D. C. Blackwell

Swallow – Um filme sobre psicologia, controle e abusos

Bem-vindos a mais um episódio de “adquirindo uma nova fobia”! Swallow é um longa de suspense e terror psicológico que não tem um pingo sequer de fantasia. Na verdade, ele é assustadoramente real, talvez a obra mais verossímil já feita na história.

Tudo começa com nossa protagonista Hunter, uma mulher tímida e suprimida pela presença do marido, mas esquecida por ele quando estão juntos, e o anúncio de sua gravidez. Hunter não tem amigos, além de ser constantemente diminuída por seu marido e pela família dele, e por consequência do desespero desta solidão e por algumas coisas mais que só são explicadas mais para o final do filme, ela adquire uma compulsão por ingerir coisas que não são comestíveis.


Hunter não tinha controle da própria vida. Casou-se com um homem rico que lhe deu tudo, mas em troca lhe tirou as poucas decisões que ela tinha. Sempre que havia algum conflito, Richie sempre achava uma maneira de tornar-se mais importante que ela, inibindo-a e às suas necessidades como ser humano independente. Ela ficava o dia todo em casa, sem ter com quem falar ou o que fazer, numa casa que ela mal reconhecia como a própria e foi escolhida apenas para satisfazer o marido. Não obstante, quando o problema começa a ficar sério, tentam lhe tirar a única decisão que era somente dela: engolir coisas. E quando sabemos do passado dela, do estupro de sua mãe, crime do qual ela foi fruto, as peças se encaixam. Hunter não é louca, incapaz ou idiota, ela só não sabe como adquirir esse controle que ela parece nunca ter tido sobre si mesma e sobre as coisas que a rodeiam.

Este longa é mais um exemplo de como o terror está diretamente conectado ao drama. Quando o desconforto acaba, quando a adrenalina e o medo passam, tudo o que sobra é pesar e tristeza. Quando Hunter foge de casa com a ajuda do melhor enfermeiro que este mundo já viu, ela vai retomando aos poucos as rédeas de sua vida. Agora que ela podia fazer o que quisesse, e depois de alguns punhados de terra e uma conversa aterrorizante com Richie, que lhe diz que ela não consegue fazer nada e que ele vai caçá-la, além de chama-la de vadia e de louca, sobram poucas amarras para ela. A primeira é descartada com uma simples ligação para a sua família, que não faz questão alguma de tê-la por perto. A segunda foi o confronto com seu pai, o estuprador. E é neste confronto que eu enalteço a direção e o roteiro de Swallow, pois quando ela o encontra e o aborda, é Hunter quem comanda o diálogo. Com muito remorso e pesar no peito, o estuprador de sua mãe a olha nos olhos e se desmonta, contando sua transição de criminoso a homem recuperado e arrependido do mal que causou. E quando Hunter lhe pergunta se ele se envergonha dela, ele diz: “Não me envergonho de você. Do que eu fiz, sim. Mas não de você”. Esta é uma cena poderosa que nos dá muito para pensar.


No fim, o aborto é a última amarra que ela corta. O filho que ele queria, e não ela, foi-se pelo ralo junto com as porcarias que ela comia. Agora Hunter está completamente livre e pronta para viver. E sabe de uma coisa? Desde o início, me parece que ingerir coisas perigosas, além de uma decisão que era apenas dela, era também uma tentativa de provocar o aborto. Bem, não sou nenhum psicólogo, mas é algo a se ponderar.

Este filme abarca uma gama de situações e de ideias extremamente grande, e nos mostra alguns pontos de vista únicos. Nunca seremos capazes de entender por que fazemos certas coisas ou onde queremos chegar com elas. Tampouco podemos prever quando cairemos na insanidade ou agiremos fora da razão. É claro que havia caminhos mais fáceis para Hunter libertar-se, mas foi arriscando a própria vida que ela conseguiu se descobrir e melhorar.

Vou embora com uma leve gastrite e deixo um recado: Não ponham porcaria na boca.