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  • D. C. Blackwell

The 100 - S7E16 - Series Finale

Acabou.



Com sete temporadas e mais de cem episódios, The 100 teve sua conclusão definitiva, cósmica e universal no episódio de hoje. O esperado final me deixou confuso, com mais respostas do que perguntas e com a sensação de que houve muita pressa e pouca criatividade para dar desfecho à trama gigantesca que, no entanto, foi repleta de questionamentos filosóficos até o último diálogo.


Algumas coisas foram esquecidas, outras escancaradamente descartadas conforme suas devidas explicações ficavam exponencialmente mais complexas e difíceis de encaixar, levando ao derradeiro esquecimento da direção de Jason Rothenberg. Num sentido geral, a explicação a respeito das forças que governam as coisas além da nossa compreensão e que determinam o destino da humanidade, por mais que vaga, chegou, e as escolhas que cabiam aos Cem neste momento que representa o fim de todas as coisas como as conhecemos – ou como nossos protagonistas as conhecem – são, no mínimo, “curiosas”, como apontado por alguém muito especial no último instante da série.

SPOILERS à frente! FICA O AVISO.

Vamos lá. Comecemos com os problemas: A morte do Bellamy e da Emori não tiveram propósito algum. Simples assim. Tudo poderia permanecer do jeito que foi com eles vivos, o que me faz pensar que houve uma amarga falta de criatividade na hora de criar impacto emocional. Murphy jamais teria ficado tranquilo com a morte de Emori, e sabe-se lá que reações ele poderia ter tido ao ser convocado para a transcendência. Ele ficaria, sim, mas a série precisaria de mais cinco minutos para fechar aquela trama com chave de outro, se ele fosse realmente viver até o final, coisa que eu não acho que deveria ter acontecido.


Murphy precisava tornar-se um mártir, era sua missão e sua tarefa e era também a conclusão da sua trajetória de desenvolvimento de personagem. Ao fazer Murphy sobreviver e ainda receber Clarke sorridente no final, Rothenberg mostrou que não estava nem aí pra nada. Inclusive, abriu mão daquela trama – que EU não esqueço, ein, diretor! – em que Murphy morreu e viu o Inferno, e desde então começou sua jornada de redenção. E sobre o Bellamy, eu nem sei o que falar... Haja falta de noção pra destruir um personagem desses, que era membro original dos Cem e co-protagonista da série e do livro.

Com um final desses, ficou muito difícil criar momentos que causassem a emoção correta e na intensidade necessária. Tudo parece meio sem sentido quando nos deparamos com a extinção consentida da humanidade – sim, fisicamente, em termos de matéria e de sociedade, foi o que aconteceu. O beijo de Hope e Jordan podia pelo menos permanecer sem ser interrompido, teria sido bem mais emocionante e significativo. Sheidheda foi um fracasso total, embora tivesse um papel bastante interessante, que era o de contrapor com a ideia de que o ser humano pode mudar e tornar-se pacífico. Curioso que, para provar que podiam ser pacíficos, eles o mataram com um tiro de canhão de pulso. Paz, não é mesmo? Boa ideia, mas mal executada.

O conjunto da obra, entretanto, me emocionou. A escolha dos Cem, de continuarem na Terra sabendo que seriam de fato os últimos da espécie, a eventualmente morrer sem saber o que vem depois, se é que existe “depois”, me deixou encabulado. Me interessou que a Clarke não teve um momento de auto-revelação, em que ela percebesse todas as coisas ruins que fez e se arrependesse. Ao invés disso, ela me surpreendeu dando o maior tapa na cara que pode existir, apontando o dedo para uma entidade cósmica que é a soma de todos os seres vivos do Universo e julgando-os tão cruéis e violentos quanto ela mesma. E não é que ela está certa? Ao menos ao meu ver, que moral tem um ser que extingue raças inteiras que não concordam com sua própria visão de certo e errado, para julgar a Clarke, que fez exatamente o mesmo, mas numa escala infinitamente menor?


Nem mesmo os seres mais evoluídos de toda a existência das coisas conseguem ser justos ou bons ou piedosos. No fim, eu acredito que Cadogan teria passado no teste, porque ele era tão frio e racional e passivamente violento quanto as entidades da Transcendência. E este posicionamento do diretor é absolutamente genial, porque implica num loop do qual ninguém, em nenhuma galáxia ou universo, consegue escapar. Sempre haverá um lado conquistador e um lado conquistado. Paz é uma ilusão digna apenas para aqueles que saem vitoriosos. Os humanos deram sorte, mas os Bardonianos não tiveram essa chance.

Dizem que o que importa não é o final, e sim a jornada. Com The 100, eu diria que essa afirmação perde seu sentido, já que a trama, desde o primeiro instante de série, nos leva para o tenebroso pensamento do fim definitivo da humanidade e, bem, o fim chega mesmo! Ou será que não? Quero dizer, se todas as pessoas transcenderam e abandonaram seus corpos e consciências para tornarem-se parte de algo que a mente humana não consegue compreender, o que sobrou foi um universo inteiro desprovido de humanos. Toda a nossa história e cultura foram abandonadas e esquecidas para sempre dentro da vastidão cósmica do universo, e agora a relva e o musgo seguirão cobrindo o que restou das marcas da civilização. Existe algo mais agridoce que isso?

A Transcendência, meus cinéfilos, nada mais é do que a própria morte – morte do corpo e de toda a civilização humana como um conceito, ou talvez ainda pior, um apagamento absoluto que nos leva a um paraíso racional, um novo nível de existência com a qual nós, aqui, hoje, não conseguimos nos identificar ou conceber. No fim, tudo acabou: a humanidade, a sociedade, tudo o que ela viveu. Também acabou a dor, a morte e o sofrimento. E quem não transcendeu, perdeu a vez para sempre, fadado ao fim solitário longe das estrelas e da real iluminação. Lembra-me muito o arrebatamento bíblico, se me perguntarem.


"A raça humana é realmente curiosa."