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  • Ana Franskowiak

The Oblongs e o Riso Nervoso

Saudações Cósmicas! Tudo bem com vocês? Espero que todos e todas estejam radiantes. De felizes. Não de radioatividade. Ao menos, na medida do possível, digo…


Se uma piada tem de ser explicada, algo deu errado. O humor de qualidade, além de abrangente e verossímil, deve atingir sua plateia como uma flecha certeira. Essa característica penetrante, presente, em especial na sátira, porém, também em certas, teoricamente, inocentes comédias (oi, Chespirito!) permite a discussão descontraída de temas que, dentro de outros contextos, ensejariam tão somente raiva, aflição e tristeza. Trágico, porém, verdadeiro. Talvez, por isso, mais do que nunca, um termo, referente a um estado de espírito, tenha se tornado tão popular: nós estamos, mais do que nunca, rindo de nervosismo.


Costumo dizer que se você, em algum momento, se identifica com a obra de, por exemplo, Dostoiévski e Bukowski (casualmente, dois dos meus autores prediletos), você tem um ou mais problemas. E tanto melhor que eles tenham sido identificados pela arte e não varridos para baixo de tapetes metafóricos tecidos por tabus e preconceitos. Como, todavia, como nosso foco reside nas produções audiovisuais, eu gostaria de lhes apresentar uma das melhores animações já criadas com o intuito de, mais que apontar o lodo no qual chafurdamos, convidar a um mergulho: The Oblongs.



Criada por Angus Oblong e Jace Richdale (que foi coprodutor executivo das temporadas 5 e 6 de Os Simpsons), The Oblongs conta, lamentavelmente, com apenas uma temporada de treze episódios transmitidos originalmente de 1º de abril de 2001 a 20 de outubro de 2002 na Warner. Inspirada no livro de Angus, ainda não traduzido para a língua portuguesa, Creepy Susie and 13 Other Tragic Tales for Troubled Children (aliás, a Susie é minha personagem preferida), foi uma das duas séries do Adult Swim exibidas durante a madrugada do SBT, onde a conheci. E enquanto eu pesquisava para elaborar esse texto, a falta de informações, de modo geral, acerca de The Oblongs me entristeceu ao mesmo tempo em que me motivou ainda mais a escrever a respeito e trouxe à tona dois questionamentos: seria o anti-hype uma justa resposta à falta de qualidade da produção em comento? Nada mais distante da verdade. Assim sendo, o que faltou para que The Oblongs lograsse o sucesso de, por exemplo, Rick e Morty? Não digo que faltou, e sim, sobrou. Explico: The Oblongs trata-se de um dos produtos artísticos mais geniais, hilários e incômodos já criados. Mesmo para os parâmetros do público do Adult Swim. Duvidam? Fixem bem as máscaras e venham comigo!



A série inicia com uma cena clichê protagonizada por um dos habitantes dos ricos bairros altos, conhecidos como Colinas. O indíviduo em questão acorda, abre a porta, recolhe o jornal cuja primeira página traz uma notícia alentadora (Rico Fica Mais Rico), sorri e recolhe-se à sua mansão para… aliviar-se. Acompanhamos o trajeto dos seus rejeitos que caem em uma poça a céu aberto nos bairros baixos, ou Vale, o lar, agridoce lar de nossos protagonistas.


Milo Oblong, protagonista, corresponde a um alter ego de Angus Oblong, que, por sua vez, corresponde a um heterônimo quase pessoano de David Adam Walker. Ele herdou da mãe, Pickles, alcóolatra e fumante inveterada, como Lucky, o gato da casa (sim, vocês leram certo), a ausência de cabelo, é estrábico e possui diversas disfunções mentais e sociais, porém, é um bom menino, agraciado com o otimismo do pai.


Bob Oblong, contrariamente a outros pais de sitcoms, é um bom amigo, bom esposo e bom funcionário da onipresente, Globocida (de pesticidas a fórmulas de bebês), que com sua caixa de sugestões que dá para um incinerador, faz a usina nuclear do Senhor Burns parecer um parque de diversões. Acessibilidade? Vagas para pessoas com deficiência? Junte-se a nós! Como o senhor Oblong, que, mesmo sem braços e pernas, fecha garrafas de veneno com a boca (qual é a sua desculpa?) e, nas horas vagas e reuniões da escola das crianças, revela-se um exímio pianista (usem sua imaginação), pois tem uma família com a qual contar, diferentemente do solitário James, colega, cordunda que espera ansiosamente pela chegada de sua noiva. Pelo correio.


Vocês ainda estão aí? Não vão embora. Vai ficar pior. Digo, melhor!


Milo é tutor de um cachorrinho chamado Scottie, que se tornou narcoléptico devido aos testes da Globocida na qual era cobaia, é irmão de Biff e Chip, gêmeos siameses que brigam a maior parte do tempo e da doce Beth, membro mais jovem e mais sensato da família Oblong, e que, na tóxica loteria do vale, nasceu com uma verruga saliente no topo da cabeça. Ainda no primeiro episódio, Milo comemora sua saída da escola para crianças problemáticas (cuja placa ostenta orgulhosamente seu sucesso de décadas em transformá-las em crianças medianas) e ingresso na mesma escola onde sua turminha estuda e sofre bullying de Jared, seu amigo e as Debbies, todas iguaizinhas, como num medonho retrato dos Alfas de Huxley.



Mikey, Peggy, Helga e Creepy Susie, respectivamente, um introvertido com problemas de aparência, uma Lisa Simpson com um único seio e problemas de dicção, uma comedora compulsiva e uma gótica mórbida compõem a turminha que apronta altas confusões e mesmo coisas de crianças comuns, como vender refrescos. Não fosse o insalubre segredo que lhes confere sabor único… bem, é de se supor que crianças acostumadas à rejeição e rótulos depreciativos mostrem-se simpáticas e acolhedoras para com outras que também tenham sido estigmatizadas, correto? Pergunte isso à desprezada Garota Com Um Bico, que sequer consegue fazer parte do seu clubinho.


Eu poderia esmiuçar capítulo por capítulo, visto que essa é daquelas produções que, quanto mais revisitamos, mais nós descobrimos, porém, justamente por esse motivo, prefiro que a descoberta se descortine perante olhos atônitos por uma enxurrada de referências com traços de chumbo, mercúrio e outros metais pesados. Dentre os temas apontados, destaco o ativismo caricato e hipócrita, o Direito a serviço do lucro inescrupuloso e do silenciamento do lado mais fraco e o despreparo docente encabeçado pelo caminho mais fácil: a medicalização banalizada de crianças ditas problemáticas, com o aval de profissionais de saúde mais que mordazes: indiferentes e brutais em relação ao sofrimento alheio.


Em tempos de cumulativas demências compartilhadas, tais como ostentações, inversão de prioridades, amizades caracterizadas por números (e que, como num conto kafkaniano, muitas vezes jamais dialogaram com seus ditos amigos ou amigas), crises ambientais e sanitárias e um precupante crescimento do analfabetismo artístico, The Oblongs representa o remédio amargo e necessário que exacerba a níveis descomunais aquilo que Os Simpsons inaugurou. Não deixemos que essa série morra ou se torne Prístina, como a mãe de uma das Debbies.


Aviso: se, por algum momento, você se identificar como algo intermediário entre as Colinas e o Vale, eu tenho uma notícia. E ela promete descer tão rascante quanto os venenos fabricados pela Globocida ou os drinks que Anita Bidet serve no Balde Enferrujado enquanto sua clientela faz apostas no arremesso de anões e espera que o prefeito mascarado, Johnny, O Cara, acabe de uma vez com essa patacoada de Estado de Direito e instaure a lucha libre para dirimir conflitos. Se o Presidente Camacho fosse real, ele já teria feito isso. Mas essa é outra viagem, de outro mundo perturbadoramente similar…


E a notícia? Ah, sim: estamos mais perto do Vale do que das Colinas.


Leiam os rótulos dos produtos, bebam Maníaco e do widzenia!