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  • Ana Franskowiak

The (Really, really) Bad Batch

Saudações Cósmicas!


Já imaginaram Jim Carrey, Jason Momoa e Keanu Reeves no mesmo lugar? E se eu disser que, em algum lugar de uma galáxia distante ou de um deserto esquecido pelas almas abençoadas por uma moral discutível, isso ocorreu? Tem como dar errado? Tem. Infelizmente, muito. E como nem tudo é Sonho, para minha própria tristeza, minha primeira resenha mais ou menos acaba de começar.


Dirigido por Ana Lily Amirpour, The Bad Batch de 2016 me cativou com uma bela fotografia e a promessa de um clássico distópico na linha de Mad Max, capaz de agradar tanto Troia quanto Grécia. Quer crueza, degradação e violência explícita sem ser despropositada? Tem. Quer crítica social e metáforas aplicáveis a qualquer tempo, espaço e conjuntura, sem apelar ao panfletarismo? Também tem! Mas como algo que soma esses elementos aos nomes mencionados anteriormente consegue fracassar tanto?


Da experiência com a escrita, trago comigo a noção de que traduzir refere-se muito mais a adaptar e assumir coautoria do que colocar palavras lado a lado em busca de uma equivalência perfeita que, não raro, inexiste. Daí nasce o conceito de tradução livre, da qual, muitas vezes, decorrem pérolas de genialidade que chegam a superar os títulos originais. A obra em questão, indo na contramão, ganhou em língua portuguesa um título digno de filme adulto de quinta categoria, a saber, Amores Canibais, que por preguiça ou inépcia, já indispõe parte da audiência atraída pelos pontos positivos acima elencados e razão pela qual eu me reservo o direito de referi-la no título original.


The Bad Batch, algo como O Lote Ruim, em tradução literal, começa de modo súbito, impactante e instigante. O típico começo que nos faz perguntar como, por que, o que está acontecendo. Arlen, interpretada por Suki Waterhouse, tem sua pele marcada e é largada com uma exígua medida de água no febril cenário de um deserto demarcado por cercas. Ela acaba de adentrar o nefasto lote, território, campo ou o que o valha e pouco importam as razões que a tornaram parte daquilo que é considerado o pior e que tem de ser isolado da sociedade dominante. Seu trabalho é sobreviver, conforme demonstra a angustiante cena seguinte, retratando sua perseguição e que logo corta para outra ainda mais aflitiva e escatológica, na qual nos é revelado até que ponto as almas desvalidas que habitam daquele lado da cerca podem chegar com vistas à sobrevivência e que justificaria o malfadado título em língua portuguesa. Arlen, agora desprovida de um braço e uma perna, se vê na iminência de adotar uma estratégia abjeta para ganhar tempo e se livrar de seus algozes. E consegue. E é partir daí que tanto o andamento da película quanto questões de verossimilhança começam a comprometer sua qualidade. É perfeitamente plausível que Max Rockatansky, evocando novamente meu referencial de distopias desérticas, tenha êxito em sua fuga sob o sol escaldante, pois além de contar com ajuda, o mesmo se vê em condições físicas razoáveis, e há um subtexto a indicar que ele sabe para onde ir e o que deve fazer. Nada disso se verifica na trama de Arlen, transformando uma situação improvável (lembremos que o improvável bem utilizado é fundamental a toda narrativa plausível) em total absurdo. E esse é apenas o começo.


Conforme esperado de toda sociedade oprimida, a estratificação explícita se faz presente mesmo entre os indivíduos mais excluídos. A um nível intermediário encontra-se Miami Man, tatuador cubano, fisiculturista, que vive com a companheira catadora e a filha pequena cujos caminhos logo se cruzarão de modo nada amistoso com o de Arlen. Um ponto positivo para a cena onde ele põe os fones no intuito de abafar os gritos de sua vítima: Nós esperamos algo como um death metal extremo e o que sai é…? Porém, seguindo na esteira das improbabilidades convertidas em absurdos, a apatia da menina ao ter sua mãe morta e ser levada como refém, contraria até mesmo as descrições mais acuradas de choque pós-traumático e síndrome de Estocolmo que se possa ter mapeado.


Seu rapto demonstra que mesmo Miami Man possui vulnerabilidades, apelando, no ermo, para a solidariedade do Eremita no intuito de localizá-la. E é durante esse alívio cômico que mesmo irreconhecível fisicamente, um dos meus ídolos da infância, por seus gestos icônicos, se faz reconhecido numa cena causadora de risos nervosos em amigos e amigas das artes gráficas.


A que indivíduos colocados em condições tão degradantes poderiam se aferrar na luta constante para tão somente viver? À máxima elite da escória. Ao Sonho. Nome sugestivo do líder messiânico interpretado por Keanu Reeves. Eu tenho o Sonho dentro de mim, dizem as camisetas de suas orgulhosas seguidoras grávidas. O fato é que, entre festivais lisérgicos, diálogos pouco trabalhados e o confronto final ridiculamente fácil, quem teve seu sonho promissor destruído ao final de mais de duas horas fui eu.


O Lote Ruim, na sua abundância de temas pertinentes (boa e má-fé, imigração, abusos de poder, canibalismo metafórico entre outros), poderia ter sido bom, ótimo, esplêndido. Todavia, como Arlen no deserto, perdeu-se e foi mutilado pela falta de dinâmica e ação, restando o lamento pela perda de um grande potencial. Resta-nos sonhar com aquilo que narrativas vindouras façam melhor uso de tais recursos.


Vejam bons filmes, leiam bons livros, não machuquem coelhos e do widzenia!