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  • D. C. Blackwell

Tudo Bem No Natal Que Vem

Em todos os meus humildes 27 anos de vida, não me recordo de alguma vez ter visto um filme natalino que representasse tão bem o brasileiro. O longa protagonizado por Leandro Hassum coloca à mesa da ceia todos os estereótipos da família brasileira e faz aquelas piadas cliché e bobas de sempre, quase distraindo o espectador do verdadeiro motivo para estas cenas. Nossa perspectiva é a mesma de Jorge, um funcionário de uma multinacional de classe média-baixa que trabalha muitas horas por dia em São Paulo, capital, onde o calor e o caos imperam sob o filtro alaranjado do verão na grande metrópole. Para completar, ele não só precisa conviver com pessoas irritantes e que sempre acabam estragando a data durante o Natal, como também faz aniversário – competindo com “um aniversariante muito mais legal e carismático” do que ele, como o próprio Jorge diz. Nota-se aí a visão pessimista de Jorge sobre a data e tudo o que a rodeia, e que toca o espectador da mesma maneira com a mesma irritabilidade e desconforto nos primeiros dez minutos de filme.



O resto do longa é uma das coisas mais interessantes que já vi. Imagine um ser humano dividido em dois: uma versão só existe aos natais, sem consciência do resto do ano, o outro vive o resto do ano sem saber do Natal. Ano após ano, o homem que só reclamava do Natal se vê nos resultados mais ultrajantes e absurdos das próprias decisões – ou melhor, das decisões do seu Eu que não vive o Natal. Torna-se um homem inocente e desesperado no corpo e na vida de um homem que trabalha demais, se alimenta mal, trai a esposa e não tem contato com os filhos. Esta é uma pegada bastante similar a Click, de Adam Sandler, que gira em torno da ideia de como podemos nos tornar diferentes simplesmente por pular as partes da nossa vida que achamos ruins ou pouco interessantes. Com esse mesmo objetivo, Tudo Bem No Natal Que Vem tenta nos ensinar a importância que um único dia por ano pode ter nas nossas vidas. Mais do que isso, um dia como o Natal.


Mas por quê o Natal? A data, embora religiosa, costuma ser celebrada de várias maneiras diferentes e com vários rituais diferentes, independentemente de crença. É claro que há exceções em toda parte, mas de forma geral, o Natal é uma data aproveitada para reunir-se com seus entes queridos, amigos, familiares, pessoas que queremos bem. É como um checkpoint no ano, no qual podemos esquecer um pouco as preocupações e problemas dos outros 364 dias. Nessa data, embora possamos ter que lidar com parentes incômodos ou piadas inoportunas, somos tocados – mesmo que não percebamos – por esse senso de coletividade, esse descarrego espiritual que nos permite seguir em frente com nossas vidas. E Jorge, nosso protagonista, quando passa a não ter mais a vivência do Natal, extravasa toda aquela carga negativa das frustrações do dia-a-dia, dos planos que não deram certo, das mudanças pouco bem-vindas e as despeja como lixo tóxico sobre a própria vida pessoal. Uma pessoa que não vive o coletivo está fadada ao egoísmo e à solidão, pela qual só pode culpar a si mesmo.



Jorge com Natal e Jorge sem Natal são a mesma pessoa. Só que não. Sem aquela data, aqueles momentos, como lembretes de geladeira que mantinham sua consciência no lugar, Jorge se transformou em outra pessoa. E será que não somos todos assim? Um dia, um momento, um simples lembrete de algo que deveria ser constante em nossas vidas, mas que acabamos por esquecer mesmo assim – quem está livre da possibilidade de uma transformação tão brutal?


Tudo Bem No Natal Que Vem é um longa que mistura comédia e drama em igual medida e aborda temáticas tipicamente brasileiras e importantes no nosso cotidiano , como câncer de mama, abandono parental sexualidade, de maneira a tocar todos os públicos com igual sinceridade e severidade. Leandro Hassum mostra a que veio nas cenas mais dramáticas, expondo um potencial nunca antes explorado devido à sua popularidade no mundo do humor e a falta de contato que o público tem com este lado tão rico do ator. A trama segue um cliché, mas do tipo que faz bem. Acredito que todos precisam recordar de certos clichés às vezes, para evitar que nos percamos de nós mesmos no dia-a-dia, e este longa é um exemplo de como é relevante tomar nota das pequenas coisas, aquelas que damos por certo nas nossas vidas e que não costumamos revisitar em reflexão. Chorei demais assistindo, e se assistir de novo, chorarei outra vez.